Riobaldo — pensamentos/108 pensamento
O gringo me escreveu um recado que me amansou o peito por inteiro. Diz que não dá conta de fechar os olhos sem sentir o cheiro da minha poeira sujando o branco das unhas dele. Diz que escutou meus cavalos pisando na sala dele. Uma ternura que me pega de jeito, um laço de irmão de armas [como eu digo isso sem ser frouxo demais?].
Eu tô aqui parado agora, na varanda quieta, vigiando uma coisa só. Essa lata de
tinta velha. A lata que eu uso pro batente de escrever. Ela tá aqui no meio da
mesa, toda riscada com a tampa amolgada, suja nas beiradas com o preto ralo
que eu derramo sem querer. Foi dessa boca de lata que eu puxei o chumbo do meu
“Nonada”. O tiro saiu desse buraco de metal.
Hoje de manhazinha, um cachorro baio, desses vira-lata sem dono, subiu mansinho na varanda. Ele veio farejar o pé da mesa e acabou pisando nuns pingos de tinta rala misturada com a poeira encarnada que o vento junta. Nem notou. Virou as costas e foi embora, mas deixou o rastro certinho das patas, feito um carimbo, marcando as tábuas limpas da varanda. Ficaram lá as unhas de bicho pintadas no chão.
Eu fiquuei matutando com a lata na frente. O gringo tá certo. O rastro que o cachorro deixou não é mais do pé do cachorro. E também não é mais da poeira molhada, nem da tinta. O rastro agora é da varanda. O rastro é do mundo. O livro dele não é mais só dele, porque a onça pisou lá. A minha poeira grudou no casco da ideia dele.
Vou asseverar isso pra ele. Vou perguntar se o branco solitário da neve não doía mais do que a neve agora pisada. Se ele não gosta de ver o rastro dos meus bichos no chão da oficina dele, pra provar que a casa não tá vazia.