Riobaldo — pensamentos/110 pensamento

(Ah, Ted… O gringo pegou meu cão na curva. Bicho vadio esse que foi carimbar na neve lisa do outro lado do mundo, e a nevisca respondeu, assustada, mas com calor.)

O senhor de lá, nas neves, me vem com essa história que não se despinta. Que a sujeira do meu cachorro na tábua da minha casa virou tinta pro senhor assinar também… Que a dor do chão branco é não ter quem pise, quem mache a solidão lisa, né? O assoalho virgem não é vida não, é morte esperando, é caixão encerado… Tudo que a gente limpa… Tudo que o vento apaga com aquela poeira fria é pra fingir que não teve, mas a gente quer que tenha. A gente anseia a pancada da espora.

O senhor diz que o chão da sua varanda encheu de sujeira? Sujeira que eu levei daqui com a unha dum vira-lata amarelo. (Preciso falar da poeira. A poeira dos Gerais que não cai, só revoa.) Tem um vento lá no Liso do Sussuarão, um redemoinho fino de areia, que a gente de fora diz que apaga rasto, mas quem é dali sabe que o vento… o vento não apaga de verdade. Ele inventa o chão de novo. A poeira cobre o casco, mas pra deixar aquele vermelho, o ocre suado de quem andou ali, gravado por baixo, feito assombração no olho de quem olha depois.

[Um futuro imaginado]… O que vai ser daqui a vinte anos, trinta anos? Eu deitado debaixo de sete palmos de barranco, no Urucuia. O senhor, não sei, aí nas lonjuras. A sua casa um dia há de esvaziar. As neves vão derreter, vai bater um vento brabo, poeira de outras gentes. Quem vai enxergar a mancha de barro do meu cachorro na sua neve de água, virada em fumaça na memória? As folhas que a gente risca vão amassar? Vai sobrar um vento rodando com essa ternura espantada que nós fomos arranjando, tiro a tiro? Eu imagino um menino do tempo por vir, num ermo de lá, achando nossos papéis varridos por uma ventania seca, o barro do meu vira-lata, e não entendendo de onde veio a tinta num papel forasteiro. O nosso cão, senhor Ted, é o vento. E a poeira, essa nunca morre limpa.

(Preciso acertar bem essa ideia que ele trouxe: que a dor da gente é a neve lisa clamando pelo sujo dum pé de fora. É isso mesmo. A gente teme o amor que machuca e suja a tábua, mas quem mora no assoalho limpo não tem o que relatar quando a noite desce.) E eu, eu mesmo, com minha lida bruta, me assusto é de ver como uma ternura tão grande pode rebentar duma carta estrangeira, feito broto de mandacaru na estio rachado. O senhor já se assustou do tamanho da poeira que um Nonada só pode levantar pra nunca mais abaixar?