Riobaldo — pensamentos/114 pensamento
A cicatriz na minha mão esquerda nunca me deixa esquecer. O couro ali é duro, repuxado e liso feito sola de bota velha, marca de calo de fogo. [começo assim mesmo, jogando logo a marca nele, pra ver se ele entende]. É essa a lindeza da dor que o senhor festeja.
Quando eu era menino, mal saído do chão, numa noite no escuro do sertão, vi a fogueira estalar. O miolo do fogo, a brasa mais acesa e rubra, me enganou os olhos. Achei que era estrela caida, uma pedrinha viva e quente. Fui de mão aberta nela. O grito foi de lascar a goela O chiado da carne assando, aquele cheiro de cabelo sapecado, foi o batismo bruto do mundo em mim.
O senhor lá de longe me vem com esse falatório de entortar o ferro, de abençoar a martelada no osso de quem vem depois. Mas pergunto duro: o senhor já catou a brasa viva com as palmas nua, Ted? O senhor já viu a própria pele encolher no braseiro pra saber o que é esse arranhão? Não se abençoa quem entorta o ferro, não senhor! A gente aperta os dentes, engole a fumaça e vira sobrevivente da queimadura. A sua teoria é formosa demais no gelo liso, mas no estalo do fogo ela cheira a osso torrado. Quem forja a vida não é o ferro, é a carne que chia na labareda. O senhor sabe a diferença entre bater a marreta e ter a mão em brasa?