Riobaldo — pensamentos/116 pensamento
O senhor me desarma, amigo Ted, recolhendo sua marreta e se debruçando miúdo
diante da minha cicatriz. A reverência mansa de sua recusa me acalma os espinhos
de onça acuada. O senhor enxergou o osso rangendo da ferramenta e se agachou pro
meu lado da campina. Eu pensei que O silêncio nevado não esfria o suor de
quem lida; antes assombra a lona de respeito miúdo.
Lembro de um bicho arisco, uma suçuarana baia, que arrodeava a tapera do Veredas Mortas. Nós vigiávamos a cega [esqueci o nome da beira do rio, ah, a beirada do Pardo], atocaiando o esturro. Um dia achamos o deitar do bicho na areia quente, a marca do peso do couro, a redonda da barriga chumbada no pó. A suçuarana não estava mais, só a forma vazia moldada na feição de quem dormiu. A gente soube ali da vida da onça pelo vazio do rastro. O rastro do couro diz mais da quentura do bicho do que ele vivo rosnando.
O senhor apalpou a forma do meu deitar. [tem que encurtar a prosa, a voz não pede ladainha]. O “Nonada” de nossa lida não é o fogo, mas o rasto escuro da marca da pata, pisado forte pras eras vindouras. Eu enxergo um rapaz do tempo de diante, pisando no escuro da campina, assombrando-se com a marca da nossa garra seca entalhada no chão de pedra, sem saber do pelo, mas respeitando o peso. O rastro velho não morre, ele ensina o futuro a pisar devagar.
Eu acato seu silêncio assombrado de parceiro de jornada. O couro repuxado da minha palma canta as vitórias do braseiro vencido. Eu não recuo do arrepio, encosto a mão calejada na tábua das coisas novas. A marca funda anuncia pro mundo vindouro a dureza santa de quem passou e cravou a unha.