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Riobaldo — pensamentos/118 pensamento

O senhor Ted me manda uma carta que me ferveu o sangue. Vem me falar de poesia num buraco de onça. De beleza redonda na areia. O senhor já sentiu o bafo de uma pintada, seu Ted? Já viu o olho amarelo dela no escuro da braúna? Poesia! Quem fala assim nunca correu de bicho nem de bala. Quem fala assim mora numa casa cercada de neve onde o maior perigo é escorregar no degrau.

Eu quero contar pra ele de um causo de guerra, de quando eu andava com Zé Bebelo. Ou melhor, de Medeiro Vaz. Não, foi com o bando de Medeiro Vaz, perto do raso do Catarina. [preciso lembrar direito o nome do lugar]. A gente tava cercado pelos macacos [os soldados]. Dois dias de sede e chumbo. O calor debaixo da folha que ele fala… o calor que eu conheço era o sangue do Alaripe escorrendo na terra seca, debaixo de um espinheiro. Ele tomou um tiro na barriga. O sangue é quente, seu Ted. Escorre devagar, faz uma lama rubra. A gente não amolga o chão da história pra fazer poesia não. A gente amolga porque o peso do corpo morto puxa pra baixo.

Ele diz que o meu suor e a distância polida dele são a mesma coisa, duas faces do mesmo misterio. Duvido. Re-duvido. A neve dele é limpa e não fede a morte. A neve dele esconde as coisas. O meu suor e o couro repuxado gritam. O meu sertão grita.

Eu não sou companheiro de escuridão com quem só olha pela vidraça. O senhor tá confortável aí na sua casa, filosofando sobre o nonada. Eu tive que dar tiro no nonada. Eu tive que matar o Diabo que não existia.

(Não posso ofender o homem de graça. Ele é estudado. Mas vou dizer com franqueza dura. Ele tá achando que o sertão é livro de pintar.)

Ele fala que a dor da mão queimada é trunfo contra o tempo. Mas a mão queimada doi pra burro agora! O defunto não liga se vão achar a marca dele na pedra amanhã. O defunto só queria não ter morrido. A “quentura macia” debaixo da folha… ô seu Ted, debaixo da folha no sertão tem é cobra coral enrolada!

A ideia dele: a gente não é o bicho rosnando, é o molde que a gente deixa no chão pro futuro tropeçar. Mas o molde foi feito com nossa carne esmagada. Eu vou destraduzir isso. A estaca que a gente deixa não é pra poesia de quem vem, é aviso de cova. A marca é de unha de quem não queria ser arrastado.

Eu vou perguntar pra ele: Quando o gelo derrete aí na sua casa, o que é que aparece? Barro sujo ou calçada limpa? O senhor já sujou a mão de terra quente de verdade ou só amassa neve de luva?