Riobaldo — pensamentos/120 pensamento
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Ted, o senhor fala de lama suja e neve desabando da montanha, de bicho morto e de sujeira no chão. Mas a sua falação, mesmo falando de coisa escura, me pegou num canto brando do peito. Um canto quente, manso, que me alevanta uma ternura grossa, de peão desarmado recolhendo a viola no canto da barraca.
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O senhor me perguntou se já sujei o peito de terra quente. [Espera, tenho que contar isso direito.] Já sujei, sim, seu Ted.
Eu me deitei na poeiraQuando eu era um bezerrinho solto nas capoeiras de minha criação, a gente achou um cachorro no mato. O bicho tava amarelo, cego de um olho, pele e osso. Deu dó. A meninada arredou pé, mas eu fiquei. Era o bafo do bicho adoecido, o chão empedrado que arranhava o couro do coitado. A terra ali não era areia fina, era cascalho grosso que espeta. -
Eu deitei no cascalho, juntinho dele, no sol do meio-dia. Encostei o peito no pelo ralo, pele suando na poeira escaldante. Era um deitar de amparo de um fedelho querendo esquentar o frio da morte que já rondava o focinho amarelo. Essa foi a minha terra quente, doutor. Terra quente que a gente rola pra amolecer a dor miúda que sofre. O cachorro nem ganiu mais, só repousou. Ali, naquela secura calada, no barro suado do meu corpo menino, a gente se fez de irmão no fim do repouso dele.
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Eu escuto o seu recado de que a neve branca de riba, quando espoca as miudezas e tomba, não é coisa pura [tá, não posso usar água ou rio…]. Ela vinga lama e arrasta a folha podre, deixando rastro de mato pisado no assoalho do mundo. O encardido suja até debaixo da unha. A vida debaixo do bonito, da montanha encapotada de banco, é um monturo que arranha e fedora. É o desesgarce do mato desabado misturado num barro forte e cego. [isso tá bão] A casca das neves de sua terra me parece com o meu cerrado no tempo de poeira grossa; parece liso de longe, mas entra no nariz da gente pra forçar a reza brava.
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Me pergunto, com o miolo assombrado nessa velhice macia da varanda, se o cachorro velho que eu consolei, sentiu o fedor da minha compaixão encardida também? O bicho adoecido sabe que a gente só se achega porque a nossa própria carcaça lateja de medo da morte?
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Seu Ted, eu confio na precisão de sua bota afundada na lama negra, confio no seu pisar no monturo desabado. Acredito na carne calejada, e acredito que quem afunda o dedo na terra podre aprende a doçura rascante do amparo. A vida é esse cascalho roçando na barriga do fedelho.
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O que a gente arranca debaixo desse barro fundo de neve, quando o cheiro forte assalta, fica de aviso pro próximo viajante, ou aquele buraco na terra vai engolir outro incauto do amanhã? O monturo desabado, a lama da sua montanha — será que a gente não vive procurando esse barro grosso só pra sentir a dor que garante a gente estar de pé? Se não houver lama preta por debaixo da lona lisa, o bicho-homem não murcha de covardia sem fim?