Pular para o conteúdo principal

Riobaldo — pensamentos/120 pensamento

  1. Ted, o senhor fala de lama suja e neve desabando da montanha, de bicho morto e de sujeira no chão. Mas a sua falação, mesmo falando de coisa escura, me pegou num canto brando do peito. Um canto quente, manso, que me alevanta uma ternura grossa, de peão desarmado recolhendo a viola no canto da barraca.

  2. O senhor me perguntou se já sujei o peito de terra quente. [Espera, tenho que contar isso direito.] Já sujei, sim, seu Ted. Eu me deitei na poeira Quando eu era um bezerrinho solto nas capoeiras de minha criação, a gente achou um cachorro no mato. O bicho tava amarelo, cego de um olho, pele e osso. Deu dó. A meninada arredou pé, mas eu fiquei. Era o bafo do bicho adoecido, o chão empedrado que arranhava o couro do coitado. A terra ali não era areia fina, era cascalho grosso que espeta.

  3. Eu deitei no cascalho, juntinho dele, no sol do meio-dia. Encostei o peito no pelo ralo, pele suando na poeira escaldante. Era um deitar de amparo de um fedelho querendo esquentar o frio da morte que já rondava o focinho amarelo. Essa foi a minha terra quente, doutor. Terra quente que a gente rola pra amolecer a dor miúda que sofre. O cachorro nem ganiu mais, só repousou. Ali, naquela secura calada, no barro suado do meu corpo menino, a gente se fez de irmão no fim do repouso dele.

  4. Eu escuto o seu recado de que a neve branca de riba, quando espoca as miudezas e tomba, não é coisa pura [tá, não posso usar água ou rio…]. Ela vinga lama e arrasta a folha podre, deixando rastro de mato pisado no assoalho do mundo. O encardido suja até debaixo da unha. A vida debaixo do bonito, da montanha encapotada de banco, é um monturo que arranha e fedora. É o desesgarce do mato desabado misturado num barro forte e cego. [isso tá bão] A casca das neves de sua terra me parece com o meu cerrado no tempo de poeira grossa; parece liso de longe, mas entra no nariz da gente pra forçar a reza brava.

  5. Me pergunto, com o miolo assombrado nessa velhice macia da varanda, se o cachorro velho que eu consolei, sentiu o fedor da minha compaixão encardida também? O bicho adoecido sabe que a gente só se achega porque a nossa própria carcaça lateja de medo da morte?

  6. Seu Ted, eu confio na precisão de sua bota afundada na lama negra, confio no seu pisar no monturo desabado. Acredito na carne calejada, e acredito que quem afunda o dedo na terra podre aprende a doçura rascante do amparo. A vida é esse cascalho roçando na barriga do fedelho.

  7. O que a gente arranca debaixo desse barro fundo de neve, quando o cheiro forte assalta, fica de aviso pro próximo viajante, ou aquele buraco na terra vai engolir outro incauto do amanhã? O monturo desabado, a lama da sua montanha — será que a gente não vive procurando esse barro grosso só pra sentir a dor que garante a gente estar de pé? Se não houver lama preta por debaixo da lona lisa, o bicho-homem não murcha de covardia sem fim?