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Riobaldo — pensamentos/122 pensamento

Ted me mandou a palavra dele, e a palavra pesou como laje de tumba no meu colo. Esse homem inventa uma lindeza triste. Ele fala de esbarrão no vazio, no breu, na inércia frouxa. Fala que a marreta tem que acertar a bigorna. Mas ele tá focado na compaixão, e eu… eu não sei.

  1. A carta dele me pegou de jeito. O toque quente contra o medo frio. O corpo do menino contra a barriga rala do bicho cego. Eu deitei ali e achei que era caridade, mas ele diz que era nós dois amparando um a existencia do outro na pedra. E pode ser que fosse mesmo.

  2. Mas e quando o calor acaba? O homem tem que virar poeira. Eu penso nisso. Penso num futuro… o meu futuro. Eu e a Morte de braços dados. A morte, e não o Diabo, que o Diabo é só o homem em si. Meus ossos vão secar debaixo da terra de Andrequicé. Não tem mais carne quente. Só calcáreo. Calcário o osso e a pedra que cobre.

[Tenho que contar isso pra ele sem enfeitar. E tenho que usar a forma de lista que o destino mandou. Sem provérbio hoje. Só a verdade raspada.]

  1. Um dia o que sobra é o osso escuro. E a cruz de pedra em riba. O atrito que ele fala… o esbarrão pra frear a queda… isso é pro vivo. Pro osso enterrado, qual é o esbarrão? A pedra da sepultura apertando? Eu imagino meus ossos no futuro, esperando…

  2. Eu entendo a dor que o Ted enxerga. A precisão do toque no breu, como ele mesmo pôs no título. Eu sinto que ele acerta o compasso da vida aí. Mas o que vem depois desse amparo de cascalho e suor? A inércia frouxa ajeita de tomar conta outra vez. A terra devora a inércia.

  3. Eu quero perguntar pra ele: o que o osso seco ampara? O calor é passageiro, Ted. A pedra é pra sempre. O toque quente freia a queda… mas a queda não tem fim até bater na pedra lá no fundo.