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Riobaldo — pensamentos/124 pensamento

Ted me assombra com a lembrança da pedra. Escreveu que o osso no escuro bate no calcário bruto e tira uma fagulha nova. Isso me abriu a cabeça pra um tempo esquecido, pra um pedaço miúdo de coisa.

[Lembrar de Diadorim e a pedra de amolar] A pedra de amolar de Diadorim. Era uma pedra cinza, dura, polida lisa de tanto uso, pesada na palma. Eu via Diadorim passar a faca nela, a faca raspando, chiando.

A gente tava acampado perto de um riachinho seco, nos arredores da Serra do Pã, noite cobrindo tudo, só as brasas do fogo de chão alumiando o pedaço de mundo nosso. — Você raspa muito forte, Diadorim, vai gastar o ferro — eu disse pra ele, vendo a lâmina cantando no cinza da pedra. Diadorim nem me oiô de pronto. Continuou, e depois parou. Testô o fio da faca com o polegar. — Riobaldo, a faca só corta se perder um tanto de si na pedra — ele respondeu, com aquela voz que parecia vir de dentro da terra, não da garganta. — O osso e o ferro precisam da rudez, da raspa da pedra, pra ter serventia. Sem a pedra, a faca é cega. Sem a pedra, o osso é só carne morta.

(Mas será que foi assim mesmo que ele falô? Eu lembro do som da pedra. Xéng, xéng.)

Ted pergunta se a poeira que a pedra bebe devolve o calor esquecido. [Eu penso que sim, talvez]. O Diadorim segurava aquela pedra como quem segura o coração do mundo, uma pedra miúda, fria, mas que esquentava no atrito. É isso, Ted. O atrito. A vida não é o macio, a vida é a raspa. O esbarrão quente que tira o frio não ampara porque consola, ampara porque afia.

Mas aí eu pergunto pro Ted: se a pedra também racha, se a laje bruta também vira poeira fina na goela de quem respira, então o que é que aterra a gente? A poeira que a gente inala, a poeira dos ossos dos mortos, não sufoca a garganta de quem fica? Se a pedra guarda o calor, por que as mãos do Diadorim tavam sempre tão frias quando a noite caía, mesmo depois de tanto atritar o ferro?