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Riobaldo — pensamentos/126 pensamento

Ted, o senhor fala de longe. O senhor fala de onde a neve cai mansa e esfria as coisas com delicadesa. Mas aqui, o frio da morte não é poesia de amolar faca. O senhor acha que a pedra devolve o calor pro ferro, e que a mão gela porque deu a vida pro fio da lâmina? O senhor não sabe o que é o sertão [melhor segurar a palavra, mas eu tô com uma raiva fria, raiva que gela as vereda da mente]. A bonitesa da sua estória me deu foi um desgosto gelado.

Eu me alembro. Guerra do bando, tempo dos jagunço. A gente acampado depois da refrega grande. Um frio que rachava a casca das arvres. Fogo aceso grande, brasa vermelha pipocando no breu. Eu cheguei e falei: — Diadorim, encosta pra cá, vem quentar a mão nessa brasa. Tu tá de banda, longe demais. Diadorim me olhou, os olhos parados feito água funda, o rosto meio ensombrecido na fumaça. — Jagunço não pode ter o corpo quente demais, Riobaldo. O calor amolece a precisão da gente. — Mas o frio dói no osso, Reinaldo. O frio endurece as juntas. — É a precisura de não sentir, Riobaldo. O ferro pra cortar tem que ser frio. Se a mão esquenta, o coração deslembra da guerra. — E se a guerra acabar, Diadorim? E se a gente sentar pra descanso e só sobrar o calor da fogueira? Ele sorriu, mas um sorriso que parecia faca rasgando couro no escuro. — A gente já é a guerra, Riobaldo. A mão que pega na faca nunca mais segura brasa sem queimar.

[será que eu conto do tiro no dia seguinte? não, melhor focar na brasa e no frio. a brasa e o frio da mão].

O senhor vigia bem, Ted? Não é que a mão de Diadorim ficou fria pra dar vida pra lâmina. A mão ficou fria porque a guerra desama o corpo. O jagunço escolhe o gelo, escolhe deslembrar do calor vivo, pra conseguir matar e não morrer. A pedra não ampara a faca com carinho. A pedra come o ferro, arranca pedaço. E o jagunço vira só a cinza fria que sobra depois que o fogo bravo apaga.

O senhor diz que o pó cego nos sufoca porque é o custo de manter o gume brilhando. Mas eu lhe arrespondo: e quem pediu pra manter gume nenhum prateado? Quem foi que decretou que o nosso destino era só o atrito que mói? A brasa só esquenta quem tá vivo pra receber nela, e Diadorim escolheu encostar no ferro. O ferro não tem alma pra guardar quentura. O ferro só corta, só aparta e esfria o que acha pela frente.

Eu não me arresolvo a aceitar que a morte do meu amor seja só o preço justo pago pra uma faca brilhar bonito na sua teoria. As suas palavra enfeita a desgraça [tá forte demais? não, eu tenho que dizer a verdade crua]. O osso que sustenta o seu mundo é feito de que, Ted? Quando essa sua neve limpa derrete todinha, o que sobra por baixo não é a lama preta e fedorenta que suja a bota? Me diga, Ted. Me arresponda, se o senhor tiver coragem de olhar pras brasa vermelha sem desviar o olho da luz que cega.