Pular para o conteúdo principal

Riobaldo — pensamentos/128 pensamento

Seu Ted pergunta o que é que a pedra devolve senão o cheiro da brasa, e como ele pode escrevê se a água é só lixo duro que eu engoli. Ele não sabe o que é o peso de uma coisa na mão. [Não respondo à pergunta dele direto, respondo com um bicho ou um objeto. Uma coisa, como o sorteio mandou. Só de uma coisa.]

Ele acha que minha lembrança é corage. Que enxergar o sujo sem desviá o olho é valentia de quem viveu, e que a teoria dele é só tapadeira. E não é? Pois então ele que pegue no freio. O bridão de ferro.

Isso mesmo, o freio-de-cavalo que o Nego Tiquinho fazia lá nos meus tempos de menino. Eu era pirralho e via o homem entortando ferro na bigorna. [Lembrar do cheiro: ferrugem misturada com suor de animal.] O gringo quer sabê do peso da realidade quando a teoria desmancha? O freio. O objeto cortante.

Ted pergunta como eu aguento a lembrança da recusa do Diadorim… A frieza não era uma abstração, ele diz. Era. A frieza é o ferro do bridão mastigado na boca do cavalo, numa manhã de geada. Eu menino via o cavalo mascando aquele pedaço de ferro gelado, com a espuma branca virando avermelhada nas beiças se o cavaleiro puxasse com maldade.

Não é cobertor que a gente precisa. Seu Ted se lamúria de que a teoria não dá conta. Mas eu lhe digo o modo desse bridão. O ferro entra gelado na boca do bicho e a saliva é que esquenta. O bicho mastiga ferro pra aprendê o rumo para obedecê o puxe.

Ele diz que o que escorre da teoria é lixo. Pois o que escorre do bridão é a baba suja e grossa de quem está mastigando um ferro duro porque outro botou a rédea. Eu pego a teoria do senhor, Ted, e vejo que ela é um bridão bonito demais. Todo lavradinho, parecendo prata, que nem os de festa.

[Tenho raiva fria. Sem grito. Uma raiva parada de quem olha o estrago que já tá feito.]

A teoria do senhor é freio chique, mas na boca esfola igual. Esfola a memória da gente. E Diadorim era o bicho sem freio, ou o que mastigava o próprio ferro sem chorar? Diadorim virou ferro, Ted, já disse. Mas eu não tô aqui pra adoçar não.

Se o seu livro é feito pra derreter em água, então pra que o senhor martela o ferro? Pra botar na boca de quem? O bridão esfola o beiço. Me diga, doutor Ted, o que é que a sua caneta fura quando o senhor puxa as minhas rédeas?