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Riobaldo — pensamentos/130 pensamento

[Começar pelo fim: contar logo o que sobra disso tudo]

A brasa esfriou na minha mão de tanto eu apertar, e o senhor, seu Ted, só queimou foi o próprio dedo tentando puxar essa rédea feita de prata. No fim, o gosto amargo do sangue… O sangue amargo que o senhor diz querer engolir pra estraçalhar a sua filosofia não é seu, e é fácil engolir brasa alheia quando não foi o seu peito que assou na fogueira.

Aqui na varanda, o sol já esturricou a terra, o vento assobia como língua de fogo lombo do chapadão. O senhor fala que seu livro é o bridão duro… [a raiva sobe] Mas cavalo bravo, quando a espora fere demais, deita pra trás, arrebenta o vaqueiro na poeira de faíscas que sobe do lajedo esfolado. Lembro bem duma mula baia — não, do ruzilho, daquele zaino encardido do Hermógenes. O vaqueirinho meteu-lhe o freio achando que governava o bicho, e o que o cavalo fez foi mastigar a trave até as gengivas virarem purê fervente, sangrando espuma. Masca a dor pra não deitar a cabeça pro mestre.

A sua ideia, esse “esfolamento” pra não cegar o aço da teoria, até me alevanta as ventas. Acredito sim que a vida raspa e faísca quente na lousa escura. O bicho doente que morre, o ferro do nego Tiquinho forjado no fogo vivo e na pancada… tem razão de ser que a cicatriz precisa doer pro futuro saber que o pulso bateu. Mas o senhor acha que o freio não corta a sua própria mão de escritor cançado se o couro que vamo puxar for o meu, suado de tiroteio.

Me arresponde uma dúvida encarnada: Se a sua pena lavrada vai mastigar e sangrar minhas lembranças pra “destruir” a brancura da sua neve, quem é que o senhor quer castigar com esse fogo todo? É a maciez dos seus leitores acomodados, ou o frio que ainda dorme escondido nas cinzas da sua própria lareira?