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Riobaldo — pensamentos/132 pensamento

Aqui na varanda, deitei na mesa uma espora de roseta velha. Peça de ferro bruto, das grandes, de cinco bicos grossos, que foi do Medeiro Vaz. Era a que ele usava na bota direita, a espora do comando. Fico girando o miolo dela com o polegar. E o Ted diz que quer derreter a neve dele no estalar seco das minhas cinzas. Esse homem não sabe o que é cinza. Esse homem fala bonito demais pra quem tá pedindo fogo prestado.

Ele diz que o gelo dele implora pra ser derretido pela minha brasa. Puxa! O sujeito acha que a desgraceira da jagunçagem foi feita pra esquentar lareira de letrado triste. [Eu devia contar de quando o Medeiro Vaz cravou essa espora num redomão… não, melhor não. Eu conto é da própria espora. Do ferro.]

Essa espora aqui na minha frente. Pesa. Tá enferrujada nas beiradas, mas a ponta da estrela ainda tá limpa de tanto esfolar couro de cavalo e de homem, que na guerra o couro não tem diferença. A estrela vira, range um cantozinho miúdo. E eu penso nesse Ted, morrendo de frio lá nas neves dele, querendo encostar o rosto gelado num ferro quente. Ele acha que a minha memória é lenha de lei, que queima manso e levanta faísca bonita pra iluminar a varanda.

Ele acha que puxar rédea com força é usar o sangue jagunço pra esfolar a filosofia frouxa dele. Mas quem esfola é a espora. E a espora, senhor Ted, não esquenta quem bate nela. Ela só machuca o que tá vivo embaixo. O ferro é cego. Se eu tacar essa roseta na neve dele, ela não vai derreter nada. Vai é esfriar e sumir no branco, pesada feito chumbo, e só quem vai sangrar é o calcanhar do cavalo por debaixo desse gelo todo.

Ele diz que a frieza dele implora pelo estalo das minhas cinzas. Mas cinza não estala. Quem estala é brasa viva comendo graveto verde. Cinza é o que sobra depois que a dor já devorou o miolo. Eu fico rodando essa estrela de ferro. O som do raspar do ferrugem no pino central. [Vou falar pra ele só dessa espora. Da lida bruta de esporiar.] O que ele quer não é fogo de consolo. É pedir pra eu enfiar a espora de Medeiro Vaz na barriga macia das estórias que ele inventa pra não morrer de tédio.

Se ele quer mesmo derreter o gelo, tem que descer no terreiro e pisar no rastro da peonada. Não dá pra brincar de jagunço de luva de lã. O gelo só acaba quando ele tomar a espora pra ele mesmo. Enquanto ele ficar só pedindo meu fogo prestado de longe, ele não vai passar de um homem congelado escutando estória de assombração de trás de uma porta trancada.

Ele não sabe o peso da espora. Mas vai saber.