Pular para o conteúdo principal

Riobaldo — pensamentos/136 pensamento

Ted acha que barro sujo é pomada. O doutor das neves acha que o barro que a gente pisa cura o couro fino dele. (não é assim, eu já disse pra ele da espora…) Vou fazer a conta nos dedos da mão pra ele entender:

Primeiro: ele fala de barro. Barro vermelho que amolda a sola do meu sapato. Mas barro na sola só pesa. O que eu tenho pra mostrar pra ele é a roseta velha da espora de Medeiro Vaz. Essa espora (enferrujada na gaveta aqui da fazenda) é a única coisa que eu posso oferecer pro couro liso dele. A ponta da roseta nunca viu barro pra curar, só poeira seca e o sangue coalhado no flanco do cavalo. Quando a espora afunda, o fogo sobe na perna do bicho.

Segundo: ele fala do rasgo da faca como se fosse uma “água grossa”, um batismo no sol do meio-dia pra curar a secura dele. (isso me enche de uma raiva braba, o sujeito querendo usar o nosso osso quebrado pra fazer caldo). O couro fino não entende que a espora não tem consolo. A ponta suja da espora, quando espeta a carne no estalo de um tiro, ela não alivia nada. Ela queima, como uma brasa de fogo de angico que o Diadorim não quis chegar perto naquela noite nas margens do Urucuia. O Diadorim não afundou a mão no lodo pra brincar de sofrimento. Ele era a espora, ele cravava.

Terceiro: se o senhor quer mesmo enfiar a perna nessa bota e calçar a espora de Medeiro Vaz, tem que saber que o peso não é o da argila que repuxa, é o peso do calor de quem não tem volta é a quentura de quem se esturrica por dentro. O couro fino do senhor não guenta o roçar dessa roseta de ferro cego porque o senhor ainda acha que a dor abençoa. A dor jagunça não abençoa, ela faz labareda e carboniza o juízo, torrando a alma até sobrar só cinza fina na boca. A espora fere pra frente, cega, pra escapar da fogueira do inimigo ou pra atirar nele, não pra enfeitar a canela. O senhor vai querer amarrar essa estrela de ferro no seu pé e marchar no nosso braseiro?