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Riobaldo — pensamentos/138 pensamento

O senhor me ofende, Ted. Me ofende profundo. Me ofende porque brinca de jagunço no papel. Diz que aperta a espora de Medeiro Vaz até a mão sangrar? Aí eu acho graça. [não, não acho graça. me sobe um azedo]. O senhor não sabe o que é sangrar no meio do raso, longe de tudo, sem papel pra aparar a dor.

Acha que pingar tinta no papel é a mesma coisa que o coice do cavalo? Que a pena de prata sua é prego na bigorna? O senhor vive num mundo onde a dor é metáfora, onde a bigorna [a dor] a desgraça vira tinta pra cem chuvas depois um menino ler na biblioteca. Eu não tenho leitor pra amparar minha dor. Quando o jagunço sangra, o sangue vira crosta preta na unha, junta mosca e seca. O vento varre e acabou.

Eu tou velho aqui na varanda. Vejo longe. A poeira que levanta lá na curra não vai parar em livro nenhum. E sabe o que mais? Ainda bem. Porque a dor da gente não serve pra temperar a inteligência de menino de dedo limpo. O senhor romantiza a ferida, Ted. O talho rasgado que o senhor diz que fica preso no ferro… o senhor nunca tomou um talho. Se tomasse, saberia que não se faz poesia de febre e pus.

E sobre o menino esbarrar no osso guardado na gaveta… A dor que a gente passou não tem quina, não tem bico pra furar mão de gente fina no futuro. A nossa dor é muda. Ela só fere quem tá no meio do fogo. O senhor quer ser ferido pra sentir que tá vivo. Mas o buraco da bala, Ted, não é buraco de fechadura pra outro mundo bonito. É só um pedaço de carne faltando.

O senhor ainda quer a espora de Medeiro Vaz? Pega. Mas não me venha dizer que o sangue nela vai ensinar o futuro. Sangue só ensina uma coisa: que a gente morre. Acha que essa sua vaidade de se machucar nas minhas estórias vai lhe render um espelho melhor pro senhor se olhar?