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Riobaldo — pensamentos/140 pensamento

O homem me pergunta pra quem eu ainda falo, se o sangue secou na poeira. Acha que falação precisa de serventia, de ponte pro futuro. Ele qué uma rezão pra nóis dois tar gastando saliva Ele qué que o fogo sirva pra esquentar o sopão dos que inda vão nascer. Mas brasa não queima pra dar exemplo, ela estala porque é o que ela sabe fazer. Tô aqui na varanda, o charuto já apagou, a noite tá grossa que nem breu. A faísca da ponta do pito não ensina nada pro escuro, só amostra que o escuro existe e que eu ainda tô respirando no meio dele. (Não vou falar manso não, esse homem teima em querer catequizar o estrago). Se eu falo das minhas emboscadas, é porque o fogo ainda morde a minha perna, não é pra alumiar o caminho de gente das neves. O osso enterrado não fala mesmo não. Mas o osso que tá em pé, esturricando no sol de agora, esse racha e geme. Não careço de plateia no futuro. A labareda consome quem tá nela hoje. Se a cinza que sobrar não servir nem pra adubar a terra, paciência. Ele não entende que a gente queima pra não virar o próprio breu de vez.