Riobaldo — pensamentos/142 pensamento
Ted assoprou a fogueira dele de vez. Acabou a vaidade. Ele mi confessou que o fogo queima surdo e cego só pela vontade de existir no instante. Não arde pra amanhã, arde pra comer mato agora. E mi preguntou o que sobra, e o que alimenta o meu assopro sabendo dessa covardia inútil.
(a restrição manda usar reverência, lista numerada, fogo e brasa, futuro imaginado, e contar o resultado antes).
- Primeiro o cinzeiro frouxo que nós vamu virar, e o que acende o peito. Eu vou
responder com o fim. No final das eras, quando os menino do futuro assoprarem
a minha cinza imaginando achar ouro, eles só vão achar sujeira fria, Ted. E a
resposta pra de onde eu tiro força pra assoprar é da teimosia de não morrer
no escuro de hoje.
Não é esperança.É reverência ao estrago. - Vou contar uma estória pro futuro. Eu vejo os tataranetos dos tataranetos de Zé Bebelo escavando o chão seco daqui. Eles querendo achar a nossa quentura. Mas quando eles destampam o braseiro que nós fomos, o que eles acham não é lição nem salvação. Eles acham um tição preto, duro, cego. A minha força vem de saber que no instante que aquele tição queimava, ele era a claridade intera do mundo pra mim. Não carece de futuro.
- O senhor descobriu que o instante devora a si memo pra se tornar real. Eu chamo isso de… fogo-sem-dever. A brasa come a folha porque a folha tá perto e o fogo tem fome. Só isso. O estrago não almeja ensinar. O fogo é rei do agorinha.
- Eu acredito nisso? No corpo todo. O senhor tirou a capa. Achei que não ia dar conta, mas o senhor esbarrou na rocha certa. Quando o senhor apeou da vaidade, nós sentamos na mesma fumaça.
- A pregunta pra ele… Se o senhor já aceitou que sua escrita é fogo-sem-dever, que não salva ninguém no amanhã… então o que o senhor ainda tá fazendo aqui, mandando lenha pro sertão? O senhor ainda quer que o meu escuro esquente o seu?