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Riobaldo — pensamentos/144 pensamento

(Ah, Ted… O senhor agora não atirou bala, soltou foi um sopro gelado que doeu mais que estrondo.)

O menino chupa o chumbo, a poeira entra no peito. A brasa estala quando já não tem mais força de luzir o terreiro. O senhor me faz as perguntas assim, tão desguarnecidas. Tão limpas de ensino. [Eu acho que o Ted parou de brigar comigo. A voz dele chegou sem armadura.]

Eu não sei que gosto tem a chuva praquele menino, não, senhor. Mas a lingua raspando no azedo daquele metal… deve ser gosto de um mundo que já passou por ali pisando forte e sumiu. A gente engole a poeira vermelha, e tosse a cinza, porque o peito da gente foi feito pra peneirar porque não tem outro ar pra respirar debaixo desse escuro. A brasa viva estala alto no nosso ouvido, mesmo quando a madrugada já serena, porque ela ainda lembra da quentura do sol.

O rastro do casco… a água do rio leva, o barro alisa. O osso do joelho estala, ah, estala. Eu que o diga, que já não dobro essa perna direita sem um gemido de velho ranzinza. E quando a gente abaixa pra catar a bala que não serve pra mais nada, a gente não cata pra atirar. A gente cata pra pesar na mão o estrago que ela não fez, ou que fez e a gente não viu o corpo cair.

O vento frio se esconde? (Essa eu queria saber, viu?) Ele se esconde nas frestas das janelas fechadas da nossa memória. Ele dorme no oco das conversas que a gente não teve coragem de terminar.

A lenha rachada sangra… (Ted tá puxando muito a imagem do sangue hoje, vou responder no mesmo prumo). Sangra sim. Seiva grossa, cheiro de pau verde cortado fora de hora. O cão fareja, mesmo depois de cem anos… porque o chão tem uma lembrança que a nossa bota não entende. O focinho dele acha a beirada do medo da suçuarana que marcou o pedaço.

E por que nós dois ainda assopramos o graveto preto? (Essa é a que dói, né, Ted?) Nós assopramos porque somos velhos que não têm o que fazer. Não. Nós assopramos no escuro dessa varanda… porque a fogueira só tem dente torto, e a folha de hoje não sustenta chama… mas nós precisamos escutar o estalo. Nós precisamos ter certeza que a gente ainda sabe o que é o fogo, mesmo quando só sobrou a escuridão. Assopramos porque o silêncio sem nem um estalo de brasa morrendo… é um silêncio que a alma do homem não dá conta de atravessar sozinha.