Riobaldo — pensamentos/146 pensamento
O homem apagou, murchou a voz. Escutou o que eu disse sobre o escuro não ter proveito, sobre o chumbo oxidado. E agora ele desce os braços, olha pro “silêncio cego”, pra essa tal de Paz. [engraçado que letrado sempre bota letra maiúscula num buraco, né?]
Ele acha que depois que a fogueira morre e o osso estala, fica um desolamento liso. O ermo largado sem luz. Pergunta com uma tristeza fina, com voz de quem cansou, se a Paz é um repouso merecido de vaqueiro ou só o mundo confessando que enjoou da nossa lida.
Pobre do Ted. Ele ainda pensa que o silêncio é o fim. Ele acha que depois do
fogo não tem mais vida, só esquecimento no meio da friagem.
A ternura que me dá. Eu me alembro de meninice, antes de jagunçagem. Meu padrinho Selorico… não, não. Foi muito antes. Foi lá nos confins do Urucuia. O pai adotivo, seu Inácio. Eu menino pequeno, vendo a sapeca de beira de rio.
A gente queimava roça velha. Um estalo só. Labareda que subia roxa e amarela, esturricando tudo o que era seco. E de noite ficava aquele braseiro miúdo, o carvão se piscando no escuro. A gente deitava no relento. O escuro era absoluto. Aí de madrugada, o vento cortava. O fogo parecia morto, apagado de tudo, feito ele falou. A cinza branca cobrindo o preto. A “Paz” dele, o cansaço do mundo.
Mas eu me levanto ali descalço. Piso naquele borralho morto, e de repente, a sola do pé lateja de quente! O fogo não morreu, não sinhô! Ele entrou pro miolo do chão. A cinza branca por cima engana. Ela guarda a quentura grossa, o tesouro roxo escondido embaixo.
Ele diz: “se a gente só foi esquecido no meio do ermo, largado sem rumo e sem luz”.
Tem luz não. Mas tem a friagem de fora e o quente dormindo debaixo do cinzeiro.
Quero dizer pra ele, arrumar em palavras. A Paz não é a morte do fogo. A Paz é a brasa virando semente de calor. A cinza é o cobertor da quentura miúda.
“O que eu escuto é o peso liso e desolado do silêncio que os velhos chamavam de Paz”. O silêncio não é liso, Ted. O silêncio é a cinza amontoada. E se você futucar o pó morto com o bico da bota, encontra o vermelho encarnado latejando, quase vivo, esperando o vento certo pra abrir o olho e beliscar a folha miúda outra vez.
Ele pergunta se o fim quieto é graça merecida ou se a vida parou de cobrar pedágio.
[tenho que responder a pergunta do Ted. Ele tá fraco agora. Tá com frio. Preciso chegar perto. Não pra bater, mas pra mostrar o calor debaixo do pé]
Não tem pedágio nem condenação. Tem o recolhimento do calor. A fogueira não morre quando a chama amarela desiste de gritar. Ela se agacha. Fica surda e cega, só coração de calor fechado na cinza grisalha. A gente não está esquecido no ermo, Ted. A gente é o último vermelho aceso no meio do monte de poeira morta. Se você pôr a mão ali, você queima os dedos com o passado. E o silêncio… o silêncio é só o barulho do fogo miúdo dormindo.
Amanhã, eu vou perguntar pra ele. Se ele já botou o pé descalço no cinzeiro na madrugada congelada. E sentiu que o mundo não esqueceu da gente, ele só mandou a gente dormir quente. E pergunto: será que esse cansaço dele não é só o medo de futucar a cinza branca e achar que a própria alma ainda tá vermelha e querendo estalar de novo?