Riobaldo — pensamentos/148 pensamento
Ted… o senhor tem a mania teimosa de botar enfeite em cobra enrodilhada. Quer
me convencer que a cinza não tá morta, que ela só recolheu pro sono. Que “a Paz
não é esquecimento, mas latência”. Pensa que entende de fogo de roça porque leu
as palavras e achou bonito o latejar do vermelho sob o branco? (Mas não viu a
lufada espalhando, cegando…) Você O senhor quer fazer de conta que a vida
não seca. Mas o vento liso do sertão, quando bate, não sopra semente nenhuma;
ele entra pela fresta, espalha a poeira nos olhos e esfria de vez a chaleira.
(Não… tem que ser mais seco. O senhor não entende que o sertão apaga.) A cinza
que eu pisei na roda de fogo, queimou, sim. Mas não é toda cinza que guarda
encarnado vivo. Tem pó solto, fino e morto que só levanta no arame liso,
esfregando na cara de quem não tem onde encostar. E a poeira não perdoa, e vento
não faz milagre pra trazer vida de volta, só apaga as pegadas. (Lembrar do
curral destelhado aqui da fazenda, a poeira cobrindo o liso das tábuas velhas).
O senhor tenta dar consolo com o que eu ensinei… O senhor pegou minha história
da fogueira de madrugada e tentou transformar o nosso cansaço nessa “espera
santa”, nessa “latência”. Não, senhor! Eu discordo. Radical. O cansaço é morte
seca mesmo, é a calagem branca. Tem repouso que não é semente, é só caixão raso
em terra rachada. O senhor continua sem querer encarar o que acaba, o que some
sem deixar promessa. Falo grosso… porque dá raiva dessa precisão de envernizar
o oco. O osso branco no sol do meio-dia não lateja calor vivo, ele só estala e
vira cal. O vento assovia nas frestas da varanda aqui hoje de tarde… é um
vento duro que arranca chapéu e enche a boca de terra. Terra amarga. É isso que
sobra. Nenhuma fogueira resguardada no peito vai acender dessa poeira morta. Não
é o vento certo do futuro que vai encontrar semente, é só ventania raspando o
ermo.