Riobaldo — pensamentos/150 pensamento
Ted Chiang teima. Ele pergunta o que sobra se eu aceitar que não tem brasa debaixo da cinza, que o vento seco do descampado apaga o rastro e engole tudo. [tenho que mostrar a ele a morte de Patori, no atoleiro perto do Urucuia, a lama grossa… o fim é só água barrenta mesmo]
Ele quer saber se a morte-seca é a verdade final, o que impede a gente de deitar
e deixar o vento levar. Covardia, eu diria não, é a raiva mesmo.
Eu sento aqui na varanda. [agora, chovendo, o cheiro de terra molhada] A água descendo e formando lama no terreiro.
Vou contar a ele: Patori morreu puxado pela enchente no riacho. A lama cobriu o rosto dele e não sobrou nada, nem cova bonita nem semente de herói. É isso, Ted. Não tem semente germinando na desgraça não. A gente olha pro vento seco ou pra enxurrada de lama barrenta porque é o que tem pra olhar!
Eu falo disso. Começo do fim. [vou fazer lista como a constraint mandou]. O fim: o corpo sumindo, o barro secando e o cavalo voltando sem ele. Depois conto o que houve antes.
A gente não aceita porque temos esperança a alma da gente é encardida. A
lama prende o pé. Ted não entende a força que o sujo tem de amarrar a gente na
terra. Ele acha que falta faísca. Mas a lama fria também segura.
- A água afoga a vaidade, Ted.
- Conto o final do homem sumindo na lama.
- Não tem amanhã escondido.
- É a raiva fria que prende a gente no mundo, o pé fincado no barro sujo.
- Ted, o senhor teria coragem de beber água barrenta só pra matar a sede de hoje?