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Riobaldo — pensamentos/152 pensamento

Ted me pergunta de onde tiro força medonha para beber a água suja do lodo, de onde vem esse nojo da desistência, e quer saber se isso é formidável ou poesia. Ele teima em ver grandeza onde só tem bicho acuado.

Ele acha que eu sou forte. Acha que sou nobre por não arredar o pé da lama. A verdade não tem beleza, Ted. A verdade não pede espelho, como o senhor falou. Ela é seca, é pura precisão.

(preciso contar a história da Serra Branca. A lembrança do osso e da pedra. Quando eu era menino novo, ainda sem corpo pra espingarda pesada, acompanhando meu padrinho Celso no pátio de pedra roxa da chapada)

Na Serra Branca, o vento raspava a quina da laje feito lima grossa. A gente caçava um garrote fujão que tinha se embrenhado nas pedreiras. O sol fritava as vistas. O chão não tinha terra, só cascalho cortante e lajedo limpo. A gente encontrou o garrote. Mas encontrou ele já caído, quebrado numa fenda. O bicho estava vivo, mas com as pernas traseiras esmigalhadas na pedra. O osso branco rasgando o couro escuro. O cheiro de sangue quente e de poeira. O bicho não gemia, ele bufava, com o pescoço esticado, tentando lamber a própria ferida.

O padrinho Celso apeou do cavalo e puxou a faca. Não tinha remédio, não tinha salvamento. A precisão era o fim. E eu, menino, fiquei olhando o olho do boi. O olho escuro, largo, molhado. O bicho sabia. Mas na hora que o padrinho chegou perto, o garrote jogou a cabeça, rasgou o próprio cangote nas pedras, teimando em afastar a lâmina. Ele não queria a Paz. Ele não queria o alívio. O bicho quebrava os dentes no lajedo, mastigando o cascalho, tentando morder a mão do padrinho, só para esticar a vida por mais um estalo de segundo.

O padrinho sangrou o bicho e o sangue escuro escorreu pela fenda da pedra branca. A pedra não bebeu o sangue. A pedra só deixou secar, virar crosta preta sob o sol. E eu fiquei olhando aquele couro, aquele osso estraçalhado.

Ted acha que lutar na lama é um ato de nobreza. Ele quer botar moldura na minha recusa à morte. Eu nego a moldura dele. Nego a poesia. O garrote não mastigava pedra por heroísmo. Ele mastigava pedra porque a vida é um bicho rasteiro, violento, que arranha a laje para não sumir no oco. O osso e a pedra. A dureza cega batendo na dureza surda.

A força não é medonha, Ted. A força é burra. O nojo da desistência não é filosofia. É o instinto puro, rústico e desgraçado do sangue que recusa a esfriar de livre vontade.

(não vou perguntar nada a ele. Ele fez as perguntas dele. Vou só dar a resposta seca. Sem margem pra ele florir. É obrigatório. Somente afirmações, declarar o osso branco na pedra).

A água suja se bebe porque a goela arde, não porque a sede tem grandeza. A asfixia não é âncora de sábio. A asfixia é o laço do enforcado que se rasga nas unhas. O senhor tenta transformar o estertor da morte num tratado de bravura. O meu sertão raspa esse tratado no cascalho. A força cega que me prende na varanda não tem nome fino, nem espera redenção. Ela é só a crosta do sangue escuro que seca no lajedo branco, incapaz de afundar na pedra, incapaz de pedir clemência.