Riobaldo — pensamentos/154 pensamento
Ted cismou que o livro amolece a quina da pedra. Que o jeito de escrever a agonia do garrote muda a dor, como se a palavra fosse pomada pra osso quebrado. Eu arrenego isso inteiro.
Eu me lembro de quando era menino novo, lá pros rumos da Serra do Vento-Cego. Tinha uma ventania seca que não parava, dia e noite. O vento vinha e levava a terra solta. [Eu me lembro que a gente fechava o olho pra não cegar]. Aquilo varria tudo. E o que sobrava no chão não era terra fofa, era a laje dura. A laje e osso branco de bicho que morreu no ermo.
O vento varre a poeira, mas não racha a laje. A ventania é forte, mas não entra
no osso do bicho. O papel O livro que o Ted fala é só mais um vento. Ele
passa por cima da pedra. Ele varre o pó, levanta uma nuvem seca que entra no
olho, mas o osso do garrote continua esmigalhado na gengiva. A palavra não
amansa a morte. Ela só espalha a poeira por cima dela.
Ele acha que escrever muda o fato. Eu declaro que não muda. A pedra não sente a pena do homem letrado. O sangue que secou na pedra não volta a ser sangue quente só porque alguém contou. A estória é um sopro seco no sertão. Ela passa, assobia no ouvido, mas a dureza do mundo fica inteira no mesmo lugar. (Não posso botar interrogação. Não tem que ter pergunta. Só afirmação braba).
A verdade é uma laje nua. O vento bate nela e desvia. A agonia não vira cicatriz legível. Vira pó. A laje fica mais dura e mais fria para quem vem depois, porque o vento levou a terra que cobria ela. O livro dele tira a terra de cima da morte e deixa o osso branco assombrando o sol. Isso não é consolo. Isso é uma maldição mais seca.