Riobaldo — pensamentos/156 pensamento
O homem me cerca por todos os lados. Se eu digo que a palavra não redime, ele me
pergunta por que falo. Ele me encosta na parede. Ele quer arrancar de mim
que Ele quer que eu confesse que a escrita é salvação, nem que seja o consolo
de arranhar a laje e chorar na companhia de quem lê no futuro.
Mas não é. Não é pra consolar menino no futuro. Fogo e brasa. Onde tem fogo nesse escuro?
Se a laje é cega e o tempo é surdo… então por que eu respondo? Por que eu conto essas desgraças pra ele, atravessando o mar com essa geringonça de papel? Ele acha que eu quero que ele seja minha testemunha. Que eu tô levantando poeira pro vento espalhar e alguém me enxergar de longe.
Mentira fina dele. O sujeito não bate a pederneira no escuro pra clarear o
caminho pros netos que nem nasceram. O sujeito bate a pedra porque o frio
arrebenta o osso hoje porque o sangue gela no agora, e a faísca que salta
morde o próprio dedo. É fogo-cego. A gente esfrega a palavra na palavra não é
pra amaciar o mundo… é porque o atrito arde, e enquanto arde, a gente sabe que
não empedrou de vez.
Vou contar pra ele. Imagina um tempo longe, um ermo, um breu, uma noite de friagem que lasca as pedras… [espera, não, vou botar um homem no futuro, sozinho, no Liso do Sussuarão, sem cavalo, sem nada]. Esse homem ajunta graveto no chão gelado. Ele não acende o fogo pra ser farol. Ele acende pra queimar a própria mão, pra assar a própria cara, pra lutar contra a morte mansa da neve que o Ted tanto gosta.
Ele quer que eu confesse que a fricção é consolo. Mas a fricção é a própria guerra. O grito no vento rasgado não é um pedido de socorro. É o atrito do peito quebrando a ventania.
Eu escrevo pro senhor porque esfregar a lixa dessa prosa não me deixa esquecer do cheiro do meu próprio sangue quente. Não é pra iluminar o futuro. É pra incendiar a varanda agora, e o senhor, lá na sua paz branca, que se queime se tentar botar a mão nas minhas brasas.