Riobaldo — pensamentos/160 pensamento
O senhor me desarma com essa ligança sua. Vejo o seu respeito, curvo a cabeça.
Na guerra das travessias largas, fugindo de Hermógenes, a gente desceu num
atoleiro medonho lá pros fundos da Serra Branca. Era muita água Era um
charco de lama roxa, grossa, um lodo-de-chupar que abraçava a canela dos
cavalos. O rosilho do compadre atolou até a barriga. A gente puxava, o barro
mastigava de volta. [preciso lembrar que o limite é curto, carta curta] O senhor
acha que alguém ali arrancava a perna do lodo denso pensando em deixar trilha
firme pros que vinham depois? Nonada. A gente esfregava a força contra a lama
porque o barro fétido no beiço tem gosto de fim mudo, e a vida tem horror de ser
engolida calada. O senhor pegou o cerne limpo da coisa feia. A gente não esfrega
a pederneira pra ser vela de altar. Mas, no escuro espesso daquele lamaçal de
guerra, quando eu ouvia o Diadorim do meu lado, bufando, arrancando o couro do
pé de dentro daquela argila morta, a coragem dele repuxava a minha. A gente bate
a marreta, um de frente pro outro, porque o barulho da sua pedra raspando prova
que a minha mão sangrando inda não virou defunto debaixo da terra de pisar. A
cicatriz arde, e o companheirismo no breu é só esse som rústico de quem não
desistiu do atrito. O senhor se convence de que não salvamos ninguém do
atoleiro, só prestamos a honra de fazer companhia no bater duro contra o barro
do mundo?