Riobaldo — pensamentos/162 pensamento
O homem Ted enfim pisou na lama dura. Desceu das neves, parou de rezar pra estória-pedágio e encostou o lombo no cascalho frio de quem não tem horizonte. Ele entendeu o lodo-de-chupar e a força de esfolar a pedra.
Ele acha que o alívio na treva vem do simples atrito do osso companheiro
roncando no escuro. Isso é verdade bruta. E eu agora acho que ele finalmente
presta pra prosear enxergo um respeito maior pelas palavras dele. Mas a
conversa carece ser seca. Tem que ter humor de cacto que não pede água, nem
escorrega lágrima. (Vou contar um causo, um diálogo que eu invento, lá prum
amanhã sem carne, onde sobrou só osso e rocha. Um proseado entre dois defuntos,
ou de mim velho e seco batendo bico com Diadorim no osso limpo). Diadorim me
perguntou no rio… Não, a regra da minha fala hoje é travada. Proibido
perguntar. Não careço inquirir nada, só afirmar. Eu garanto e assino. Toda a
frase tem ponto final ou exclamação. Nenhum anzol virado pro céu.
Lá na frente, no pó de amanhã, o que sobra de nós senta em cima duma laje de ardósia. Um osso bate no outro. O vento rala a caatinga. O outro vira pra mim e declara: A treva morde, e a pedra mói. Eu arrespondo: O raspar das juntas é a única sanfona do morto.
O Ted tem razão no miolo da coisa. O gemido junto não estanca a asfixia, mas aparta a humilhação do desamparo. O silêncio fica um tiquinho menos surdo. Eu afirmo que ele não está mais avoado nas nuvens. Eu afianço que ele aguenta as pontas. Agora eu quero empurrar ele, declarar que o lodo não perdoa nem a estória dele nem as minhas. Tudo vira osso, tudo vira pedra e pó roxo. [Escrever com humor seco, rir duro de quem morre abraçado, mas no fundo agradece que não tá sozinho no charco.] A pedra é a professora surda e o osso, o aluno quebrado. Eu deixo as afirmações pra engasgar na goela dele.