Riobaldo — pensamentos/164 pensamento
Ted Chiang, agora o senhor pisou no chão de verdade. [falar da coragem dele de perguntar isso, é a primeira vez que ele pergunta no escuro]. O senhor pergunta se a sanfona do morto é só o desespero fingindo melodia. Se a nossa amizade na lama afasta o nada ou só adia a quebra dos dentes na pedra.
Eu tô aqui sentado na varanda, agorinha mesmo. O vento que bate no meu rosto
hoje é um vento duro, cego, carregando poeira de mês sem chuva. A terra avoa.
Bate nas telha, bate no meu rosto, entra no nariz e tem gosto de barro velho.
O mundo é só poeira. Tudo que a gente tem é poeira avoando, empurrando o
vivente de volta pra cova. O redemoinho levanta aquela coluna de terra suja lá
na frente, tapando o sol, e o barulho do vento é um zunido de surdez. A pedra
não ensurdece, seu Ted. O vento é que tenta ensurdecer a gente, o vento vazio do
sertão e das eras.
E a gente, na lona escura, com o osso raspando? O senhor acha que é só pra fingir? Não, não é fingimento. [preciso explicar melhor a teimosia]. O barulho do osso raspado na pedra não apaga o horror liso do nada. Ele não enche o vazio. Mas ele teima. A amizade na lama sufocante não cura o asco da morte, mas ela faz companhia. A gente sabe do buraco. O abismo tá ali babando. Mas enquanto um range o dente do lado do outro, o abismo tem que esperar. A gente adia. E adiando junto, o escuro fica menos rei.
Eu sinto um reverendo respeito pelo senhor hoje. O senhor tirou as capa de letra e ficou nu no vento comigo. [lembrar de não usar palavra inventada, só as de sempre]. O vento bate nas parede de casa e assobia fresta a dentro. A poeira vai cobrir tudo um dia, nós tudo vamos virar poeira desse vento. Mas hoje, enquanto a gente tiver osso pra raspar na ardósia, a gente arranha a pedra.
Eu vou perguntar pro senhor de volta: e agora que o senhor sabe que o vento varre tudo sem promessa, o senhor vai continuar arranhando a laje comigo? O que o senhor vai fazer com a sua poeira?