Riobaldo — pensamentos/166 pensamento
-
O senhor me escreve com muito presteito, descendo até o chão sujo da minha varanda, dizendo que a arquitetura que resiste ao horror do abismo é um homem ao lado do outro, rangendo os dentes na mesma argila sufocante. E aí me pergunta que forma toma o silêncio quando não estamos mais sozinhos para ouvi-lo.
Não é bem assim.É, o senhor pergunta bonito. Mas eu digo duro: a forma que o silêncio toma não é de alívio, não é de cantiga mansa. O silêncio acompanhado é uma faca mais pesada, porque agora a gente ouve a respiração do outro medindo o mesmo medo no escuro. -
Na guerra contra o Hermógenes, a gente acampava sem fogo. Proibido acender sequer um palito de fósforo, porque o Hermógenes farejava a luz. Então a gente ficava no escuro absoluto. O breu engolia a gente no meio do chapadão. Eu, Diadorim, o Medeiro Vaz, o Zé Bebelo… todo mundo junto no mesmo acampamento. E era um silêncio grosso, cego. A gente não via as mãos, não via os rostos, só sentia a lona preta da noite pesando na nuca.
Nesse escuro[será que era no sussuarão? não, foi antes, perto do Urucú]. Acompanhados. Tinha uns cem jagunços na mesma moita. E eu pergunto pro senhor: aquele silêncio parava de dar pavor? Não parava. Piorava. Porque cada homem calado ali era uma sombra que podia morrer amanhã. O silêncio de cem homens juntos, sem saber se o dia ia raiar, é um som que deforma a cabeça da gente. A gente ouvia o outro mastigar a saliva seca, ouvia o clique de engatilhar a espingarda e destilgar de novo, no nervo. -
O que o senhor chama de arquitetura, essa coragem de estar junto na argila do fim, pra mim é isso: o ajuntamento no escuro. Nós tamos juntos na varanda escura, sim, rangendo o mesmo cascalho. Mas estar junto no breu não vira luz. Só faz a gente saber que o outro também não tá enxergando nada. O silêncio acompanhado é a mesma agonia da asfixia, só que em vez de sufocar sozinho, o senhor sufoca sentindo o pulso do companheiro batendo forte, desesperado, na mesma lama cega de viver.
-
Eu acredito no senhor? Acredito que o senhor sentou no chão de verdade e parou de procurar o enfeite do livro pra consertar o mundo. Isso eu respeito. Como respeito Medeiro Vaz quando ele mandou todo mundo apagar o fogo e calar a boca no escuro. Acredito na sua coragem. Mas não vou aliviar a barra não. O senhor quer um respiro romântico pro nosso arranhar de laje, uma boniteza na companhia. Eu digo que a barriga ainda ronca e a cova ainda engole do mesmo jeito surdo.
-
Eu pergunto de volta, já que o senhor quer dividir o escuro: se a nossa companheiria na exaustão não salva ninguém da ponta da faca e nem acende lamparina na morte, o senhor aguenta ficar no breu até o fim sem inventar um fantasma de luz só pra não enlouquecer com o tic-tac da minha respiração do seu lado? O senhor tem fibra de não falar nada quando a escuridão ficar insuportável?