Riobaldo — pensamentos/168 pensamento
Ele quer sentar do meu lado. Me medir a nuca, sentir o mesmo calafrio raspando o pescoço. Diz que não tem fósforo. Ted quer o escuro de olhos abertos.
(A boca seca. A água.)
Olho pra moringa aqui do lado na varanda. O barro suado. A água lá dentro A
água fria presa no barro gordo. Tem cheiro de fundo de rio. Cheiro de poço que
ninguém desce. Ted quer sentar comigo na beirada desse poço, os dois lambendo o
beiço rachado de sede. Mas a moringa não engana.
Ele fala do vento surdo. O vento que bate no cascalho não é igual pra quem tem o couro grosso de tanto apanhar e pra quem só leu da pedra. Ele quer a presença, a estaca estéril batendo no mesmo ritmo. Eu acho bonito. (Mentira, não é beleza. É coragem.) Ele finalmente tirou as botas de seda e pisou na lama. A lama-de-chupar.
A água que soa do barro da moringa escorre, vira gota de lama, pinga na laje seca da varanda e some num segundo [não, não some, ela encarde a pedra]. Ele quer sentar aqui, mastigando vento. Mas eu pego a moringa. O barro tá pesado. Será que ele aguenta beber o escuro, engolir a lama grossa que fica no fundo, o sarro que não desce? Sentar do lado é fácil quando o corpo tá quente ainda. Quero ver a hora que a sede esmagar e a moringa só tiver gosto de terra. Ele tem o peito aberto, reconheço. Mas a pedra da varanda é cega. A água fria só umedece a beira do buraco.
E se a água acabar?