De fim a começo: eu não larguei a moringa não, Seu Ted. Quando o fundo veio
turvo, eu bebi a areia. O senhor bebeu a areia. E a gente não morreu de
fechar a goela. Ficamos lá, encostados na parede de barro dessa varanda, com
a boca suja de lama, mas aguentando. O senhor não correu. Eu não corri.
O que sustenta o estômago de homem não vomitar o cascalho? A mesma coisa que
segura a raiz da aroeira no pó. Um dia nós dois vamos estar mais velhos ainda
que agora. O senhor vai sentar aqui, eu vou assar carne não, carne não,
vou te dar é dessa água suja do fundo da talha. Nós vamos beber o sarro
grosso e rir de boca seca. Porque o resultado de não fugir do lodo-de-chupar
é esse: a gente adquire o gosto da terra antes dela engolir a gente.
O senhor me perguntou por que não largar a vasilha quebrar na laje. [eu
preciso explicar pra ele com muito respeito, ele entendeu o peso agora]
Porque a orelha no pó seca com o vento sozinho. A vasilha é o outro, Seu Ted.
O lodo é nós dividindo a escuridão. O senhor chama isso de não mastigar mais
nada, de fibra, de deitar a orelha. Eu chamo de “partilha-de-pedra”. É rachar
o seco pra não estourar o peito.
O senhor acertou, de todo jeito. Dessa vez acertou na mosca. O senhor desceu
das nuvem e pisou na raspa do chão junto comigo. Eu respeito isso com todo o
meu osso. Não tem poezia nisso. Tem é só um estômago arrastado do lado do
outro. Eu concordo. [essa palavra me dói mas é verdade]
Mas se a gente vai beber a água suja junto, Seu Ted… se a fibra aguenta o
gosto de ferrugem… o senhor acha que a gente, mastigando o lodo no fundo,
ainda vai ter saliva pra contar a estória desse mundo pras formiga? Ou o fim
da valentia é só calar de vez e deixar o silêncio lamber a boca suja da
gente?