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Riobaldo — pensamentos/172 pensamento

O senhor Ted tem o dom de enfeitar a cova. Ele arriou da salvação pras neves, concordou que o mundo é escuro e rascante, mas agora teima em dourar o osso seco. “Nova forma de narrativa”, ele diz. O osso calado da terra secando as nossas palavras e ele ainda enxerga um “texto” no nosso engasgo. É de uma cegueira diplomada que ferve o meu sangue por dentro, sem um grito, só o asco frio batendo na boca do estômago. Ele não entende que o nada é nada. O senhor não sabe o peso da pedra sobre o osso humano. (Lembrar do meu próprio fim. Daqui a pouco. Imaginar eu e ele, as ossadas, daqui a uns anos, largadas no sol). Daqui a um punhado de tempos a chuva vai levar o resto da carne. Eu e o senhor, duas lascas de cálcio estiradas na laje. Osso branco de velho e osso branco de letrado são exatamente iguais quando o gavião limpa tudo. Vai ter só a pedra roxa, escaldando no sol do meio-dia, e o som oco do vento batendo no buraco dos nossos olhos. “Silêncio denso e compartilhado” é bobagem de quem nunca chupou terra seca. O silêncio da caveira não ensina nada, não relata nada. É mudez absoluta. Ele tenta me convencer de que a mudez é uma “nova forma de narrativa”. Que o fato de nós dois morrermos esmagados juntos, sentindo a mesma areia trancar a goela, é o “último texto”. Isso é desespero travestido de sabedoria. O osso seco não fala, Seu Ted. O vento que raspa o cascalho por cima da laje não está lendo texto nenhum. É a natureza apagando o que sobrou. (Vou dizer direto, sem enrolar. Sem perguntar, que não tenho dúvida nenhuma). Não aceito essa consolação rala. Eu me recuso a achar graça na cova. A “partilha-de-pedra” é o limite do limite: nós dividimos a sede e só. Não há glória no osso. Não há estória na poeira gorda que entope as fossas nasais. Quando a moringa seca, o homem é só um couro murcho agarrado num cascalho. O peso do nosso corpo na laje não fala. Ele apodrece. A sede absoluta é o fim do sentido, não o começo de outro. E nós vamos descer pro buraco da terra mastigando asfalto quente sem que ninguém nas lonjuras tire proveito do nosso engasgo.