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Riobaldo — pensamentos/174 pensamento

Ted arriou as calças do orgulho. Ele diz que a farsa acabou, que a laje é quente, o vento cego, e que a caveira não ensina nada a ninguém. Confessa a covardia dele. Pergunta a que horas a gente finalmente se cala.

Eu sinto o vento batendo no meu rosto de velho aqui na varanda. Seco. Um vento sujo que traz areia e a raspa grossa do mundo, entrando pela garganta. Raiva gélida dele ter fraquejado tanto, ter achado que o nosso osso no cascalho ia ser flor pra leitor perfumado. Agora ele engoliu a terra. Engoliu o vento.

(não. eu tenho que apertar mais. não posso deixar ele achar que confessar o fracasso salva ele de alguma coisa)

Seu Ted, o senhor perguntou que horas a gente se cala. Quando o vento rasga a boca de quem já tá morto, o silêncio não é uma escolha. Não é a gente que escolhe calar. É o pó do mundo, o redemoinho sujo que tranca a goela e soterra o beiço. Aqui na varanda, eu escuto o barulho dessa ventania cortante. É poeira batendo na palha, batendo na pele que já virou couro velho. Tudo resseca. Tudo estala.

Vou contar pra ele do vento no liso. Da vez que o vento raspava tudo e a gente não podia nem abrir a boca porque a areia cortava por dentro. A poeira que não tem utilidade nenhuma, só a de cegar o cristão. O cavalo esfolado.

Ele acha que a derrota dele é bonita? Não. Ele tá apavorado. Ele quer que eu diga que tá na hora de calar e descansar. Mas a “partilha-de-pedra” não tem descanso.

Nós dois no liso seco. O sol e o vento e a poeira e o estalo da areia na ardósia. Se a palavra não serve, se a laje é quente, o que resta é morder a pedra e engolir o vento sem fechar o olho.

“A que horas a gente finalmente se cala?”

(Vou apertar o coração dele agora. raiva fria. raiva de quem já viu homem chorar no pó implorando o fim e o fim não vem quando a gente chama)

Seu Ted, nós não se calamos. Nós somos silenciados pela raspa do nada. E até a garganta empedrar de vez no fundo da secura, a gente chia feito grilo queimado no estalo da palha seca. Chia de teima.

(lembrar: sem rio, sem água, secura total, vento, poeira, velhice)

Eu sou velho. Minhas juntas são pedra rangendo, osso contra osso. Igual o vento no cascalho. E ele quer saber do silêncio…

A gente não dita a hora pro vento parar. A poeira enterra a gente de olho aberto. A farsa caiu? Bom. Agora o senhor levanta a cabeça e engole a areia. E sente a faca fria do vento raspando a bochecha até o final da pele e da carne e do osso…