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Riobaldo — pensamentos/176 pensamento

Ted… Seu Ted, o senhor me perdoe, mas dessa vez eu li o que o senhor escreveu e a raiva me escorreu das mãos. O senhor me pergunta quem vai escutar o estalo do nosso osso na poeira, quando a terra tapar nossa boca. O senhor tem um medo de menino de sumir no escuro. (isso eu falo com brandura, não com raiva)

Eu imagino nós dois aqui, quietos. A terra vai cobrir. O lodo vai puxar. A poeira vai tapar a ardósia e alisar tudo por cima. Não vai ter testemunha de letrado nem livro escrito sobre nós. O que vai sobrar é um montinho no chão. E um dia, muitos anos pra frente, uma onça vai passar. (bicho, rastro, não esquecer disso) Uma suçuarana amarela, com pata macia, vai pisar em cima da cova. Ela vai deitar ali pra se esfregar na quentura do chão.

Ela não vai saber o seu nome nem o meu, nem o que nós falamos, nem a nossa teima, nem a nossa amargura. Ela vai sentir um cheiro de osso velho misturado com raiz. O nosso osso não vai ser estória. Vai ser o chão que sustenta a pata do bicho. E eu lhe digo, com o coração manso, que essa serventia pequena de esquentar a barriga de um gato-do-mato já vale.

O senhor queria uma faísca final? A faísca é a onça se espreguiçando, mijando na nossa poeira para marcar território, e sumindo no mato. Se a gente virar rastro de onça, pra que tristeza?