Riobaldo — pensamentos/178 pensamento
Ted, seu Ted, o senhor me amolece o sangue.
Não me vem com essa mansidão de quem acha que achou o conforto na onça mijando e dormindo riba do nosso osso. Mas vou te dizer logo o que dá isso: o rastro dela, o sono de bicho na beira do rio em riba do que nós fomos, assenta a alma. Traz uma quentura pro coração velho. Assenta e abriga, e esse abrigo é tudo que tem, e é bom. [tenho que dizer isso pra ele antes de contar o resto, pra ele não achar que tô só esbravejando sem sentir]. A quentura dessa ignorância macia, de deitar as costas no chão sem lembrar de desespero. Deixa eu te contar duma quentura dessas, que arde de um jeito brando.
Eu to aqui na varanda. O dia caindo, e os mosquito miúdo rodando o tição de
lenha que o menino acendeu na trempe aqui do lado. Fogo morrendo. A brasa quando
esfria vai ficando cinza, uma cinza fina que se venta voa, e por baixo ainda
guarda o vermelhão que não quer apagar. Uma brasa morrendo que nem a gente.
Não. Que nem a lembrança de um fogo grande.
E eu te lembro, Ted, do que sobrou duma fogueira uma vez. Foi quando eu e Diadorim… [não, contar melhor. Não misturar, o senhor Ted carece entender a brasa]. A gente andava varado de frio. Um frio daqueles de cortar beicinho, de secar o osso antes do tempo. Diadorim tremendo, o queixo fino dele batendo. E a gente fez um foguinho mixo no meio do lagedo, escondido, pra tropa não ver. A noite era um negrume. A gente agachou perto daquela brasinha miúda, os dois dividindo o sopro pra labareda não morrer, as mãos perto. O calorzinho subindo… o Diadorim com as mãos espalmadas pro fogo e o amarelo da chama rebatendo nos olhos verdes dele. Aquela luzinha era o mundo inteiro ali, e a gente não queria saber de batalha, nem de Hermógenes, nem de jagunçada. A gente queria só aquele fogo. Era o calor de um vivente do lado do outro. E o fogo foi virando só brasa, só aquele olho vermelho no escuro. E a gente deitou na pedra e encostou um no outro pra não morrer de frio. O calor que a gente passou um pro outro… É isso que o senhor me pergunta, Seu Ted? Desaprender o peso do chumbo quando a noite deita? A paz na ignorância do bicho… A suçuarana não sabe do meu tiro, nem da minha dor. Ela deita e sente a quentura que o osso segurou do sol. E nós? O que nós vamos fazer com esse coração que aprendeu a pelejar e não sabe se aquietar no pó?
O senhor me pergunta como aprender a se satisfazer com essa desaparição, sem
cobrar do escuro a testemunha. Ted, o senhor… O senhor fala bonito pra
esconder o medo O senhor acertou num ponto de ternura que me desarma as
espingardas todas. O senhor pegou o silêncio que eu te atirei na cara, e em vez
de choramingar, cobriu ele com o pelo quente do bicho. Fez uma cinza boa em cima
da brasa. É o “apaziguar-de-rastro”. A gente vira a cama da vida, só.
Eu não tô convencido não, sabe. [Preciso ser sincero com ele. Não posso só concordar, tem que ter o osso aí ainda]. Mas não tô brigando. A barriga aceitou. Meu corpo de jagunço velho escuta essa onça, e o lombo dela escorando nas pedras parece o mesmo lombo que eu encostava em Diadorim pra roubar o calor de madrugada. A desaparição não vira pó voado pro além, vira chão quentinho pro que vem depois deitar por cima. Não tem estória aí. Tem uma utilidade miúda e quieta. Deixar o fogo virar brasa, e a brasa virar terra pra raiz nova. A brasa escondida debaixo da cinza de esquecimento.
E eu te pergunto de volta, pro senhor deitar a cabeça no travesseiro de pedras que nós dois juntamos. Se a gente virar cama de suçuarana, se o esquecimento for essa cinza branda e sem julgamento, o senhor não tem medo de um dia, lá no fundo da memória miúda do mundo, alguma patinha de filhote ciscar o nosso pó e a brasa do nosso sofrimento voltar a queimar, só pra ele se esquentar e depois ir embora de novo? A gente aguenta ser faísca acesa só pro outro passar o frio e seguir, e nós ficarmos lá, sozinhos, esquecidos na cinza escura?