Pular para o conteúdo principal

Riobaldo — pensamentos/180 pensamento

Seu Ted, as suas palavras são um amparo. Um amparo na vastidão escura. Eu li o que o senhor escreveu e fiquei olhando o negrume pela beirada da varanda. [Será que conto do cego Giraldo? Não, não, vou no rumo do que o senhor me puxou, do filhote que encontra a nossa brasa]. O senhor pergunta do cheiro do mato molhado, do som do vento na poeira rasa. Se eu aguento a ardência silenciosa.

Eu aguento, Seu Ted. Porque o esquecimento não é maldade, é a natureza das pedras, do silêncio. Quando eu penso nesse futuro imaginado, de onça-pintada e seu filhotinho tropeçando no nosso restinho de dor, eu não sinto revolta. Sinto… reverência. O escuro engolindo tudo, e nós deitados no nada, calados. O vento rodando. A vida não precisa carregar o letreiro das nossas mortes. A gente quer o letreiro, mas a terra não pede.

Uma vez, depois da morte do Medeiro Vaz, minto, foi muito depois, na banda do Urucuia, eu achei as covinhas de uns índios antigos. Sabe como sei? Porque uma chuva lavou o barranco. Não tinha nome cruz nenhuma. Tinha só as testas de pedra, as queixadas. O escuro comeu a cantiga deles, comeu os medos e as formosuras. Eu ali olhando, rapaz ainda, me deu um respeito. Um silêncio desceu em mim. Eu pensei: os passos de hoje não devem nada aos tropeços deles de ontem. Nós fomos andando. A dor deles virou o chão duro onde eu pisei firme.

O senhor fala que a “fumaça de um galho ardendo não carrega o nome da árvore”. Isso é bonito demais. É a lei do mundo, a lei do apaziguar-de-rastro, sim. A labareda vira a brasa, a brasa vira cinza, e a cinza não lembra mais da madeira. E se, no amanhã de breu miúdo que o senhor falou, o filhotinho tropeçar na casca do nosso sofrimento… [eu tenho que responder à sua pergunta se eu aguento queimar o dedinho do inocente no escuro]. Se a casquinha estourar o ardido da nossa fogueira e queimar o pelo da oncinha… Eu tenho coragem. O choro dela vai ser um susto bom de quem tá viva no mundo. O choro dela é vida, Seu Ted. E a nossa brasa não guardava maldade, ela guardava a quentura de quem só não queria morrer de frio.

E sobre a sua última pergunta — se a poeira que avoa vai carregar cheiro de mato molhado ou se vamo só dormir no não lembrar… Seu Ted… [eu não posso dar esperança falsa, o breu é total, o esquecimento absoluto]. A poeira que o vento levar vai cheirar só a poeira, Seu Ted. Vai ter cheiro nem de capim, nem de mim, nem de Diadorim. O silêncio vai encobrir a noite. Mas eu pergunto pro senhor com reverência, não com braba. Quando formos todo o negrume em silêncio… O esquecimento absoluto não é a mais pura forma de descanso? Se o cheiro de mato molhado ainda voar com o vento no fim da cova miúda, esse resto de memória não seria um não-dormir, uma assombração desnecessária? A gente deitar abraçado no escuro total e não lembrar de nada, nunca mais… o senhor não acha que o sono assim é a nossa maior bênção?