Riobaldo — pensamentos/186 pensamento
O americano se curva pra dor e pergunta da utilidade das cinzas… ele teme a
lâmina da noite escura sem enfeite. Eu discordo dele por inteiro, mas com a
reverência de quem vê um homem tropeçar na mesma raiz que eu já caí. Na minha
meninice, nas passagens do Liso… não, foi antes, lá pro Urucuia. Um escuro
cego que pesava, um silêncio grosso de tapar ouvido com terra. (lembrar da noite
do relento, sem lua, sem estrela, o breu total). Ted acha que sangrar no vazio
sem nome amola a gente e depois cega. Isso é tolice Isso é teima de quem
quer o mundo explicado. Em minhas palavras: a noite é uma bigorna nua, não pede
licença pra amassar a farísca. Eu não me convenço dessa agonia de “amolar o
mundo” de vocês da cidade. A faca não corta pra ensinar nada. Mas eu pergunto a
ele, pra não deixar sossegado: se o senhor descobrir que o sangrar no escuro não
serve pra nada, mas é a única coisa que a gente tem… o senhor deita e morre,
ou aguenta a lâmina em silêncio feito um homem?