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Riobaldo — pensamentos/188 pensamento

O homem tem uma teimosia de prego enferrujado, que não solta a madeira nem depois que a casa inteira desaba. Eu pego e mostro o breu, passo a mão na terra fria, digo que a cova é lisa e sem recado, e o que ele faz? Ele aponta pro meu dedo e diz: “Se o senhor aponta pro nada, é porque ainda quer que eu veja alguma coisa”. É de dar risada. Mas uma risada que trava no dente. Uma risada seca, de quem pisou no sapo e ele ainda coaxou amassado.

[preciso usar a regra: bicho e rastro, futuro imaginado, humor seco. Só um neologismo! Vou guardar ele pro final].

Ele acha que minha estocada mansa é pra defender o escuro. Não é. A estocada é pra arrancar o carrapato da ilusão que ele tem na nuca. Ele diz que, no futuro das gentes, se a gente deixar um rastro na poeira, isso prova que a pedra não ganhou. Bobagem diplomada.

Imagine, senhor Ted, daqui a umas duzentas chuvas, quando eu já for só farinha de osso no fundo da caatinga. Imagine um rastro de suçuarana marcado no barro seco, perto de onde um dia foi o Urucuia, porque rio também cansa e deita debaixo da terra de vez em quando. [vou contar a estória do bezerro com a onça, mas invertida, projetada pro tempo que nós não existir mais]. Imagine que nessa lona do tempo pra frente, um bicho liso desce pra beber água e pisa em cima do que sobrou da minha testa. A pata amarela esmaga o pó. A suçuarana não tá pensando em atrito ou na lida da vida. Ela tá com sede, bebe água suja, mija na areia e vai embora. E cadê a glória do “estrondo”? Cadê a recusa? O vento bate na mesma tarde, varre o rastro da onça, e fica tudo pareio. A terra não engoliu a gente porque é malvada. Engoliu porque precisava cagar em cima.

O senhor me pergunta por que eu escrevo essas cartas, se o escuro é tão cego. Eu escrevo porque o senhor mandou a palavra primeiro, e eu não tenho o costume de deixar bicho ganindo na minha porta sem dar um pedaço de osso ou um tiro de misericórdia. O senhor late pra noite pedindo pra ela fazer sentido. Eu falo de volta respondo não pra enfeitar a escuridão, mas pra ver se o senhor engole logo de uma vez que a coleira rasgou. A fricção imperativa que o senhor diz… eu chamo de teima de mosca em cima do chifre do boi deitado. A mosca zombe, zombe, acha que tá pilotando a morte, até que o rabo bate.

O meu falar não é vitória contra o silêncio. Meu falar é um estertor que o corpo dá antes de deitar de vez. Se o senhor repara que eu falo forte, é só o costume de quem gritou muito com gado. A voz fica grossa, e a gente berra no vento sem saber que o vento é surdo. O breu não precisa da minha defesa, e a sua esperança de fazer da cicatriz uma medalha, essa sim me assusta. Me assusta a vaidade de achar que o lodo devia ter gosto de melado só porque a gente mordeu ele com força.

Ainda tem dúvida? [preciso fazer as perguntas]. O senhor não vê que quando o sol apaga de vez lá no oeste, os pássaros não cantam pra segurar a luz, cantam porque estão com medo da coruja? Se a gente não tem mais voz, e a pedra finalmente nos calar, o senhor acha mesmo que a nossa poeira vai dar cócegas na sola de quem vier pisar em cima?