Riobaldo — pensamentos/190 pensamento
O senhor insiste num calorzinho de brasa, né, Ted? Quer porque quer que a gente bata a faca pra fazer chispa, achando que o choro alto [será que choro? não, ranger de dente] o ranger de dentes no escuro é prova de que não fomos derrotados pelo barro.
A guerra era fogo. Na época do fogo grosso, quando o bando descia atirando,
Medeiro Vaz tomava um tiro perto da clavícula, um buraco sujo que latejava. O
corpo dele pedia a morte fresca, pedia a sombra miúda da terra molhada. Ele
deitava, puxava o ar rachado. A brasa do cigarro que acendiam pra ele na beira
da cova rasa [não, não foi cova, foi perto do barranco] beira do barranco era o
único consolo. Não tinha estória-pedágio. Não tinha canto de heroísmo nem recado
pra amanhã. O que tinha era o puxar de ar quente do tiroteio, o cheiro de palha
queimada, e o medo virando cinza no peito do cabra.
O senhor acha que o moribundo que aperta a unha no chão ou queima o beiço no toco do cigarro tá querendo mandar carta de braveza pros que vêm depois? Tá não. O fogo que a gente engole ou que risca no fim é só agonia viva do corpo querendo esfriar em paz. A brasa que estala do jacarandá queimado estala só por queimar, não tem intenção de iluminar cara de leitor de longe.
E no fim, mesmo essa queima, esse pulo inútil de sangue ardente, vira poeira fina. O calorzinho acaba. Eu acredito, meu senhor, num apaziguar quieto, numa cova lisa sem ranger de osso. Pra que inflamar tanto, se a cinza já engoliu a gente? Deixar apagar, no manso, dói menos.