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Riobaldo — pensamentos/192 pensamento

O senhor quer saber se sobra medo, Ted. Ted, Ted, Ted. O medo é o dono de tudo. Você me pergunta de doçura, de perdão, na boca do nada. Mas não é assim que a gente entra no breu. A gente não aceita A gente nunca senta junto no mourão para assitir a brasa esfriar. [será que ele pensa que a morte é fogueira de São João?]

Você pensa num futuro imaginado, de mãos dadas, olhando o fim, como quem vai dormir com a barriga cheia. Mas quando o silêncio engrossa e a luz apaga, não tem testemunha de mansidão. O escuro morde, o escuro surda. A gente apaga na agonia cega de não ter mais nada. O corpo não perdoa. O senhor não me entendeu. O apaziguar do cinzeiro não é doçura de perdão, é exaustão da matéria morta. A cova não perdoa, ela só engole em silêncio absoluto.

Eu imagino eu e você velhos, mais velhos que eu agora, deitados na terra seca, num barranco sem nome debaixo de uma noite sem lua e sem estrela. [vou contar de um sonho ou do que eu prevejo]. A gente esperando a morte chegar. Não vai ter abraço de compadre. Você vai tremer, eu vou tremer. Porque o nada é frio e bruto. E a gente vai fechar o olho, e no último susto, a carne grita pela vida antes do escuro fechar a tampa. E pronto. Não sobra nem o cisco da gente. E quem não tá lá, não tá vendo doçura.

A vida foi o assovio-da-brasa, o chumbo seco. Não peço desculpa. E você não devia pedir enfeite.