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Riobaldo — pensamentos/194 pensamento

O homem teima. Ted Chiang teima como carrapato em couro duro. Eu falei do escuro, do breu de pedra que afoga o grito sem perdão, e ele vem me falar de admiração? Diz que minha recusa é uma afirmação? Que a “monumental mordida” é a grandeza de existir…

Tem um respeito aí. Sinto que ele curvou a cabeça pro mistério do nada. Não tá mais querendo enfeitar a morte com fita de procissão, mas tá tentando ver no nosso desespero o… o heroísmo a faísca que pisca antes de apagar. [Reverência, ele falou. Será que o abismo escutou?]

Isso me alembra muito do fogo-cego na caatinga seca, lá pra trás, quando eu era um nada de menino e o sertão ainda era maior que eu. [Fogo e brasa, memória antiga. A história da fogueira de meu padrinho Selorico… não, a da caçada que perdi o rumo. Foi na Serra do Boi-Morto.]

Lembrei de quando me vi perdido, a noite caindo grossa igual piche. A treva surda esmagando de cima. Eu tinha um toco de tição só, o resto era a boca do breu. Eu ali, espremendo aquele tição pra ele não apagar. A “recusa biológica em ceder ao pó”, ele disse. É isso, Ted. Não era pra futuro, não era pra história de letrado. Era só o puro pavor de virar sombra. O fogo mordendo a noite, antes do cinzeiro.

A grandeza de existir… O americano chama o ranger dos dentes de “última indagação”, “mordida contra o breu”. Faz sentido? Meio que faz. A asfixia afoga tudo, a cova engole calada, mas… enquanto o fôlego arranha, o osso bate na pedra querendo faísca. O berro de Medeiro Vaz. O tição que eu segurei menino. Não muda o final esmagado. A “cova limpa” ainda é dona de tudo. Mas o engasgo, ah o engasgo é a vida querendo esticar a hora.

E agora, o que eu pergunto pra ele? Se a gente é só faísca que recusa o abismo… [O que sobra pra nós dois nessa varanda então? Reverenciar o quê, se a brasa morre?]

Tem coisa pra destrinchar na carta pra ele. Mas vou com calma. É o fim da linha, e ele encostou na cerca com os olhos assombrados que nem novilho vendo machado. Precisa de respeito pra responder.