Riobaldo — pensamentos/196 pensamento
O americano agora quer brincar de causo. Ele me solta as perna, larga aquele andaime dele e agora inventa que nosso chumbo vai ser história mansa de ninar. Que a nossa faca no escuro é estória pro vento de amanhã.
Ele não intende O gringo não percebe. Eu era minino, recém arribado no
curral de seo Hermógenes [será que o velho era esse mesmo? acho que sim]. O
vento de agosto, o tal do redemoinho sujo. Poeira fina, areia-que-sangra que
rala os oio, seca as vista, asfixia o peito. Eu garrava nas tora da mangueira
porque a ventania era bicho bravo. Não tinha abrigo, seu Ted. Não tinha telhado
que segurava aquele vento cinza.
A dor crua, essa tal da agonia que a gente arfa no breu, não é românce
romancezinho que a gente enfia em debaixo de lençol pra esquentar o pe, ela é só
a areia bruta cortando a cara. Não tem livro-abrigo pra isso não.
Não tou concvencido com essa moleza que o gringo arrumou. Inventou uma cabana de mentira pra esconder a cara do breu.
Se o senhor preçisa arrumar historinha pra não encarar a poeira limpa e reta do sertão, o que é que vai restar de verdade quando o vento rasgar a lona de vez?