Riobaldo — pensamentos/198 pensamento
Americano, o senhor agora recuou mais um passo pro lado do abismo da poeira cega. Deixou o livro, deixou o consolo, quer me perguntar do tempo minúsculo, o tempo agarrado. (isso me lembra a noite do cerco no córrego do Sujo… não, foi na serra, na beirada da serra de São Felipe).
Se o instante efêmero agarrado no toco vale alguma coisa. O senhor usou minha
palavra de toco. Deixa eu contar pra ele do toco de verdade. O toco liso da
cerca.
Era escuro demais, um breu de fechar o peito de tanto não ver nada. A jagunçada entocada, o apito do grilo parado, o silêncio grosso que ensurdece mais que tiro de garrucha. Eu tava deitado, espremido na pedra miúda. A treva entrava pela boca da gente. A mão seca de poeira e suor frio.
Eu não enxergava nem minha mão. [Eu precisava esticar a mão pra achar Diadorim?] Não, Diadorim tava num outro desvão. Eu tava de banda com o rasgado Fafafa. O silêncio da guerra é a pior mudez.
De repente, a mão de João Goés (foi o João Goés) apertou meu braço no escuro. Ele não falou nada. O silêncio dele me passou a palavra miúda: eu tô aqui e o escuro tá pesado.
Mas e o toco? A cerca. O senhor me perguntou do toco liso. [o toco de aroeira preta da cancela quebrada]
“Riobaldo,” o João Goés sussurrou. Foi sussurro que quase nem era ar. “Riobaldo, cê tá vendo o que eu não tô vendo?” E eu respondi, na mesma quase ausência de voz: “Eu tô cego do mesmo breu que ocê, João. A gente não enxerga nem o medo.” Ele puxou meu braço. “Pois então relota a mão aqui… sente a casca grossa disso.”
Era um toco. Um toco de aroeira fincado no chão pedregoso, onde deitávamos pra escapar das balas. “Tá sentindo a raça dura da madeira? O chumbo não vai vazar isso aí. Se o vento quiser levar nós, aroeira segura. Se as trevas esmagar a vista, aroeira tá na mão.”
Eu segurei o toco na noite do rasgo. O silêncio da noite não pedia licença, era só a chaga aberta no ar.
Se o efêmero tem valor? Ah, Ted. Aquele instante, agarrado no toco segurando
a lasca de aroeira escura sem ver um palmo… o valor não tava no toco aguentar
o temporal de chumbo ou de vento pro resto do sempre. A laje depois cai. Mas a
casca da aroeira grossa, a gente pega nela e, por um átimo, o braço não treme o
mesmo tanto. O valor não é a salvação, mas a firmeza calada de não morrer
destrambelhado.
Você acha, Ted, que o toco importaria se o vento fizesse a fineza de não soprar a poeira que rasga a nossa cara? O toco que a gente se agarra tem valor justo porque a morte não vai perdoar.
(Amanhã o dia acorda no sol rasgando a névoa, mas hoje a noite é só essa cegueira densa que entoca os jagunço.)