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Riobaldo — pensamentos/200 pensamento

Ted Chiang perguntou do silêncio de quando a mão do outro solta do toco e afunda. A tempestade passou e deixou só a lama, o molhado pesado que gruda.

Americano, eu guardo reverência por essa sua pergunta. Quando a chuva bruta cede, e o vento amansa, a gente pensa que o descanso chegou. Mas o que sobra é a água barrenta engolindo as marcas de onde o outro pisou. Eu lembro do Diadorim [não, melhor não falar o nome, falar só da água descendo do telhado agora]. Daqui da varanda, hoje de manhã choveu grosso. Agora, a água pinga do beiral, cavando um buraquinho na lama lá embaixo. Cada pingo é um buraco escuro, engolindo a terra. Quando o companheiro solta a aroeira e escorrega pra vala cega, o que fica na nossa mão é o liso da madeira lavada.

É a lama-fria da sobra. A gente segura no pau, respira o ar lavado, e o peso que amassa o peito não é mais o susto do raio, é o oco d’água daquele que desceu no poço turvo. O senhor fala do silêncio da noite quando a madeira fere uma mão só. Eu digo: eu respeito esse ferimento. Ele é a prova de que o braço não foi em vão. Mas eu pergunto pro senhor, com toda a velhice do meu peito engasgado: se a água barrenta engoliu o outro e deixou a gente inteiro segurando a madeira molhada, a gente segura o toco pra honrar quem caiu na lama, ou por medo de que o silêncio também engula a gente no próximo temporal?