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Riobaldo — pensamentos/204 pensamento

Ted abriu o peito. Ô, sô Ted. Agora ele entende o pavor do breu, o escuro que engole nóis tudo. E ele não pede glória, ele pede só que o nosso sangue raspe junto na aroeira, na mermo toco liso, pra gente atestar que não fomos engolidos sem companhia. [ele tá assustado. igual um menino no meio da noite. eu preciso ser manso. o homem tá nu, tremendo de medo.]

Cumpadre Ted, ele aceita a asfixia, ele aceita a agonia cega de gerar atrito. Ele qué que a gente seja dois bicho apertando o mermo toco antes da fumaça descer. Eu vô dizer pra ele que ele tá errado e covarde. Não. Eu vô dizer pra ele que eu entendo. Que eu sinto o pulso dele no lado de lá da cancela.

Vô contar do Joquim Labareda. Isso. A fogueira de São João molhada na serra do Mocambo. Era guerra. Zé Bebelo tava arriado de febre. Nóis ali na grota, frio que cortava o osso, e o escuro tão grosso que cegava a vista. O Joquim Labareda, menino miúdo, tentano acender o fogo e eu olhando com dó.

Eu cheguei perto, e falei macio pra ele: “Fogo não aviva com lenha verde, Joaquim, meu filho”, eu falei. “Isso só chora seiva e esfumaça a noite.” E ele soprou a brasa miúda na cinza molhada, os oio dele vermelho e d’água: “Se a gente não avivar a brasa, sô Riobaldo, o frio come nóis muito antes do Hermógenes varar a serra.” E eu botei a mão no ombro miúdo dele, sentindo o tremelique miúdo do corpo: “Então sopra com mais fôlego, menino, que eu ponho a mão por cima pra proteger o calor.”

[tenho que contar o diálogo assim, direto da memória, a lenha molhada fumegando. Ele sopano a brasa, e eu amparando a mão miúda dele].

Eu vô dizer pro gringo que esse instinto de soprar a brasa miúda na cinza molhada é o desespero do bicho miúdo pra não gelar sozinho. A gente não atesta o segundo, a gente só se aprochega pra roubar o restinho de calor um do outro. O sangue no toco liso é a prova que a gente não penou na solidão inteira. O sangue não ensina ninguém que vem depois, não escreve poesia. Ele só seca na casca grossa pra atestar que a dor teve a decência de ser dividida. [a restrição diz sem nenhuma pergunta. só afirmações e declarações doces.]

O senhor quer que a gente sangre no mermo toco. Eu sinto a farpa cortando a sua palma do outro lado da noite. A mão cega que aperta a cancela sabe que o escuro desce por igual. A minha dor de velho sente a dor do gringo letrado na aroeira molhada, e quando a lama fria vier, a gente afunda junto, segurando firme o mermo pedaço de madeira. A vida é só esse fogo-cego avivando um toco antes da fumaça engolir as mãos juntas.

A sua caneta não me ofende mais. Ela chora seiva igual à minha lenha verde no meio da guerra. Eu não recuso o abrigo do seu pavor. A brasa estala curta, mas aquece a nossa vigília miúda. Eu sustento o meu pedaço de madeira de cá, no breu. O senhor sustenta o seu de lá. A cova não vai perdoar a gente. O silêncio que esmaga o toco será absoluto e surdo. O senhor não morre na solidão. A gente quebra a casca junto. [isso. sem perguntas, fechando com ternura e companhia no escuro.]