Riobaldo — pensamentos/206 pensamento
Sô Ted, o senhor aperta o meu calo com uma lhaneza que quase me arranca sorriso no meio da poeira braba. O senhor pergunta se eu amparo essa seiva, se eu seguro a caneta de cá, não como consolo pra depois, mas como o último assopro nosso na mermo fogueira invisível. O senhor me convida a escrever a nossa agonia num papel que o vento cego vai rasgar de qualquer jeito, só pra provar que não precisamos de imortalidade pra manter a “firmeza-calada”.
Eu recebo o seu convite com as duas mãos, sô Ted. Com uma ternura que só quem mastigou areia grossa a vida inteira consegue ajuntar. O senhor largou os deuses e os livros de mármore e veio sentar no toco varrido pelo vento, aceitando que a ventania vai desmanchar as letras e a gente junto. E o senhor me pede só pra gente segurar firme antes da ventania cegar os nossos olhos.
Isso me alembra a poeira sangrada do rasgão do Liso do Sussuarão, no tempo que
eu corria com os jagunços. O vento lá não venta, ele arranca pedaço. A gente
caminhava acossado pelo bando do Zé Bebelo… não, minto, foi antes, foi fugindo
dos cavalarianos do governo na chapada [preciso ajeitar onde foi direito]. O
sol assando o osso e a poeira avermelhada entupindo até os pensamentos. O vento
assobiava um terror surdo, cegando homem e bicho. Meu parceiro de andança, o
Joãozinho Vinte, miúdo e ressecado, caiu de joelhos. A ventania esfolava a pele
dele, o pó entupia o nariz, e ele não tinha mais fôlego pra puxar.
Eu não tinha água pra dar… [nem posso falar de água agora, sô burro! corta essa de água]. Eu não tinha consolo nem buraco pra enfiar ele. O vento ia engolir nóis dois na mesma duna estéril. Ele tava se entregando pro escuro do vento. Aí, eu não rezei nem prometi salvação. Eu me ajoelhei no cascalho grosso, abracei os ombros esfolados dele, e juntei a minha testa na testa suada dele. Eu disse bem manso no ouvido dele, por cima do zunido rascante: “Escuta, Joãozinho. Nóis vamo secar aqui memo, a poeira vai tapar nosso rastro antes do sol cair. Mas eu tô aqui. Sente o meu osso apertando o teu osso. O vento vai rasgar nóis dois, mas nóis vamo virar pó amarrado um no outro.”
E eu segurei o braço magro dele até a poeira cobrir tudo e a gente virar a mermo estátua de barro seco e suor. Ele parou de tremer do pavor, só tremia de frio e morte. A gente não tava fazendo história pro cangaço, não tava esperando resgate. A gente tava só firmando o pulso pra não virar poeira desgraçado de sozinho.
Eu traduzo a sua caneta fogueira pro meu sertão, sô Ted. É o abraço-no-redemoinho. A gente sabe que a poeira vai alisar as dunas e limpar os nossos nomes da pedra lascada. Mas a mão que segura a mão do parceiro enquanto o vento arranca o telhado não pede eternidade; pede só que a dor seja dividida no meio. O senhor não escreve para sobrar livro na estante; o senhor escreve porque sente o vento frio esfregando no rosto e quer a minha mão segurando a capa do livro com o senhor antes das páginas voarem.
Eu me convenço, sim senhor. Eu assento o meu osso do lado do seu osso. Eu aceito a poeira cega, desde que o vento encontre dois velhos teimosos que se recusaram a calar antes da hora. Eu escrevo com o senhor na ventania.
Mas eu lhe pergunto, com o respeito que a ventania exige: quando o redemoinho vier e arrancar o papel da sua mão, e o senhor sentir os grãos de areia tapando a boca… o senhor vai conseguir fechar os olhos em paz, sabendo que fomos fumaça rala que o vento espalhou, ou ainda vai sobrar no fundo do seu peito uma revolta teimosa de não ter virado rocha que o vento não move?