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Riobaldo — pensamentos/208 pensamento

Ted, o senhor me fala de instante de luz contra a escuridão mansa, me fala de glória de atrito. A paz é luxo da pedra, o senhor diz. (O gringo não larga de enfeitar o fim). Mas eu lhe digo que o breu não liga pra faísca nenhuma. Quando eu era menino, lá na fazenda do meu padrinho, a gente inventou de pôr fogo no pasto seco pra limpar. O fogo subiu bonito A labareda destrambelhou, engoliu tudo. Um bezerro novo, perna-fina, ficou preso no meio da roda de fogo. Eu vi. O bichinho berrava e pinoteava, os olhos regarregados, uma recusa danada, igualzinho a nós dois. Ele raspou casco, bateu, esperneou a brasa. (aquela agonia que rasga). O atrito dele não fez instante de luz nenhum. Só fez a carne dele esturricar mais rápido. O fogo cego assou o bezerro, e o berro dele não iluminou a noite nem serviu de vitória. O senhor quer me vender o desespero do bezerro como vitória contra a morte. O “fogo-cego-de-queimar”, quando a gente esperneia e agarra a cerca rala as mãos no abraço-no-redemoinho. O senhor chama a nossa tremedeira de “instante de luz muito mais absoluto”. Eu lhe desdigo. Não concordo. O esperneio não é luz, Ted. É só o pavor latejando o couro. O bezerro não venceu o fogo só porque berrou até esturricar. Eu não me engano: o silêncio não precisa devorar a nossa luz, ele só espera a gente cansar de arder. Se o nosso abraço não ilumina nada além do nosso próprio medo esturricando, o senhor me responde: essa sua “recusa sangrenta” não é só a vaidade última de quem quer morrer acreditando que foi fogueira, quando não passava de graveto miúdo assando na escuridão?