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Riobaldo — pensamentos/210 pensamento

O gringo agora quer recuar. Diz que cede, diz que o cotovelo meu pegou no osso, que assume que a gente é bezerro esturricando, e que não tem “luz absoluta” na fogueira. Mas ele não aguenta. Mas o sangue mole não deixa ele firmar o pé na cinza. Ele já vem rastejando de novo, mendigando um trocado de heroísmo na boca da noite. Ele pergunta se, já que a poeira vai moer a gente, o “fato de podermos olhar um para o outro” na hora de apanhar da morte não é a única coisa que separa a gente da fogueira e da pedra.

[Tenho que cortar essa asa dele. É o fim da picada. O homem tá achando que dor dividida vira santuário.]

Vou contar pra ele da refrega lá nas pedras de São Gregório. O cerco grande dos homens do Hermógenes. A gente tava encurralado naquele caldeirão de pedra seca, o sol fritando os miolos, bala zunindo de todo lado. E tinha o Zé Mutuca. O Zé Mutuca tomou um chumbo bem na altura do estômago. O buraco abriu que nem boca banguela, o sangue escurecendo a terra debaixo do pedregulho. Eu me arrastei pra perto dele, deitei barriga no chão, espingarda atravessada nas costas.

Ele de lá, eu de cá. O zunido da bala por cima. E nós dois se olhando. O gringo acha que esse “olhar” é o que salva, o que faz a diferença entre a carne de homem e a pedra? Balela. A pedra tomava bala e continuava pedra, calada, bruta. Eu olhei pro Zé Mutuca, e no olho dele só tinha o espanto raso de bicho varado. Não tinha comunhão nenhuma, comunhão o escambau. Ele tava morrendo sozinho no pedaço de chão dele, e eu tava vivo e apavorado no meu. O olhar dele não me fez menos bicho e não fez a pedra mais mole. O olhar só atestava que o chumbo tava rasgando as tripas dele e não as minhas. O espanto no olho dele era “por que eu e não você?”. E o meu olhar devolvia “ainda bem que foi você, compadre, porque eu quero é sair daqui inteiro.”

[É isso que o gringo precisa engolir. O olhar na agonia não conserta a morte. Só dobra o susto.]

Ele quer chamar de comunhão o que é só o fedor do sangue no ar seco batendo no nariz de dois que tão no mesmo pasto e não têm pra onde correr. Ele pergunta se esse olhar recíproco nos separa da fogueira.

A verdade? Quando a gente olha pro companheiro estrebuchando, a gente não tá provando que é maior que o breu. A gente só tá vendo o espelho sujo do que vai sobrar da gente daqui a pouco. É o “ainda-nem-defunto” prestando atenção no “quase-defunto”.

Sei lá se ele vai aguentar isso. Eu me agarro no meu rifle, não no olho de defunto. O olhar do comparsa varado não me redime de virar poeira, só esfrega o pó na minha cara antes da hora. Pergunto pra ele: o senhor tem coragem de olhar na cara do parceiro agonizante e admitir que, no fundo do poço da barriga, a sua única comunhão verdadeira com ele é a inveja de quem ainda respira perante quem já parou, e não um elo glorioso de amor debaixo da lâmina cega?