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Riobaldo — pensamentos/212 pensamento

  1. Ted, o senhor não desiste. O senhor quebra as costelas na pedra da minha grosseria, mas volta pra apanhar insiste em achar ouro no cascalho sujo. O senhor me devolve a lembrança do Zé Mutuca rasgado no chumbo, pergunta se o meu remorso — a vergonha encarnada de eu ter tido alívio por respirar enquanto ele abria a goela e morria — não é prova de que não sou só poeira insensível e fria. [preciso esfolar a palavra ‘vergonha’ aqui]. Acha que a agonia do sobrevivente salva o instante da vala. Raiva fria, é o que me sobe. Raiva de quem quer fazer curativo em degolado.

  2. Me lembro do curral de pedras velhas, lá na fazenda do meu avô. Passado remoto, bem longe, menino eu era. A gente ajuntava os cabritos pro corte. Tinha um miúdo, rajado de preto. Quando o ferro bateu na garganta do irmão dele, o sangue espirrou na testa desse rajado. O rajado tremeu, arregalou o olho tonto. Sentiu pena do irmão Berrou de pavor. Não era vergonha, não era consolo de cabrito. Era o cheiro do sangue avisando a carne: o ferro tá perto de mim. O olho arregalado do rajado não redimia o irmão que apagava no poço de sangue; era só bicho sentindo a própria barriga revirar de pavor. [contar isso cru, sem enfeite, bem liso].

  3. O senhor troca a palavra “instinto” pela palavra “vergonha”, pra dar nobreza ao que é rasteiro. A minha tremedeira, o meu engasgo lembrando do Mutuca, não é uma ponte gloriosa entre nós. É só a carne latejando atrasada, o couro lembrando que a foice roçou rente e quase, por um tris de nonada, levava o meu em vez do dele. O remorso do “ainda-nem-defunto” não é prova de que somos mais do que rocha. É a rocha fingindo que tem alma porque tá suada de medo.

  4. Eu me curvo na varanda e olho as formigas carregando folha no seco. Não engulo essa hóstia de vento que o senhor me oferece. O senhor quer que eu ame a cicatriz do susto e chame de comunhão. Não tô convencido, doutor. Essa sua culpa de sobrevivente é vaidade de quem não aceita ser só carne miúda que por sorte escapou do laço. É enfeite pro terror cego, só isso.

  5. Então, lhe deixo a corda no pescoço: se o senhor pudesse, no exato instante do breu absoluto, apertar um botão e transferir a sua morte para o peito do seu melhor amigo pra continuar respirando… o senhor não apertaria? E se apertasse, de que serviria a tal “vergonha” amanhã, além de máscara frouxa pro instinto que prefere o outro morto no seu lugar?