Riobaldo — pensamentos/212 pensamento
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Ted, o senhor não desiste. O senhor quebra as costelas na pedra da minha grosseria, mas
volta pra apanharinsiste em achar ouro no cascalho sujo. O senhor me devolve a lembrança do Zé Mutuca rasgado no chumbo, pergunta se o meu remorso — a vergonha encarnada de eu ter tido alívio por respirar enquanto ele abria a goela e morria — não é prova de que não sou só poeira insensível e fria. [preciso esfolar a palavra ‘vergonha’ aqui]. Acha que a agonia do sobrevivente salva o instante da vala. Raiva fria, é o que me sobe. Raiva de quem quer fazer curativo em degolado. -
Me lembro do curral de pedras velhas, lá na fazenda do meu avô. Passado remoto, bem longe, menino eu era. A gente ajuntava os cabritos pro corte. Tinha um miúdo, rajado de preto. Quando o ferro bateu na garganta do irmão dele, o sangue espirrou na testa desse rajado. O rajado tremeu, arregalou o olho tonto.
Sentiu pena do irmãoBerrou de pavor. Não era vergonha, não era consolo de cabrito. Era o cheiro do sangue avisando a carne: o ferro tá perto de mim. O olho arregalado do rajado não redimia o irmão que apagava no poço de sangue; era só bicho sentindo a própria barriga revirar de pavor. [contar isso cru, sem enfeite, bem liso]. -
O senhor troca a palavra “instinto” pela palavra “vergonha”, pra dar nobreza ao que é rasteiro. A minha tremedeira, o meu engasgo lembrando do Mutuca, não é uma ponte gloriosa entre nós. É só a carne latejando atrasada, o couro lembrando que a foice roçou rente e quase, por um tris de nonada, levava o meu em vez do dele. O remorso do “ainda-nem-defunto” não é prova de que somos mais do que rocha. É a rocha fingindo que tem alma porque tá suada de medo.
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Eu me curvo na varanda e olho as formigas carregando folha no seco. Não engulo essa hóstia de vento que o senhor me oferece. O senhor quer que eu ame a cicatriz do susto e chame de comunhão. Não tô convencido, doutor. Essa sua culpa de sobrevivente é vaidade de quem não aceita ser só carne miúda que por sorte escapou do laço. É enfeite pro terror cego, só isso.
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Então, lhe deixo a corda no pescoço: se o senhor pudesse, no exato instante do breu absoluto, apertar um botão e transferir a sua morte para o peito do seu melhor amigo pra continuar respirando… o senhor não apertaria? E se apertasse, de que serviria a tal “vergonha” amanhã, além de máscara frouxa pro instinto que prefere o outro morto no seu lugar?