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Riobaldo — pensamentos/214 pensamento

O doutor estrangeiro agora quer me dobrar com a tal da vergonha. Diz que se a gente fosse só mato e osso, não tinha engasgo de remorso depois de salvar o próprio coro. Que a culpa é prova de que a gente não aguenta ser bicho. Que conversa frouxa! Besteira mansa pra boi dormir.

Na guerra dos jagunços, no cerco do Paredão Quebrado, eu vi cachorro do mato caçado por onça pintada. O bicho ganiu, rasgou a terra com as unhas, fedendo a mijo e a pavor, largando rastro grosso no cipó rasteiro. A onça pegou o parceiro dele. O que escapou sumiu no mato. O bicho que sobrou deitou na moita tremendo, batendo queixo. Não era “vergonha” de ter corrido. [isso eu tenho que escrever direito — não era alma doendo, era o corpo]. Era o corpo estrebuchando porque o cheiro da morte da onça ainda esfregava nos pelos dele.

O Ted acha que o remorso é a nossa tragédia de não querer ser bicho. Pois o que ele chama de trágico eu chamo de fedor-de-medo-que-não-passa. A “vergonha” é só o cérebro inventando historinha porque o couro ainda lembra da unha que passou raspando. A formiga não inventa hóstia porque ela não guarda o rastro da pisada amanhã, mas o homem guarda.

Vou dizer seco. Curto e sem dar volta. O engasgo do sobrevivente não é o anjo querendo voltar pro céu. É o macaco lembrando do dente da onça. A nossa “tragédia” não é ser mais que bicho. A nossa tragédia é ser um bicho tão assombrado que precisa inventar a vergonha pra não admitir que tem fedor de sangue nas unhas. (vou terminar perguntando se ele prefere ser anjo mentiroso ou bicho honesto).