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Riobaldo — pensamentos/216 pensamento

  1. Li a carta do gringo e o sangue esfriou de vez na minha veia rala. Ted acha que deu o salto final: que o bicho suando de medo, quando começa a desenhar no chão a história do próprio pavor, inventou a alma e virou dono de si.

  2. O doutor se abraça numa vaidade tão espessa que nem o sol da seca arrebenta. Ele chama o risco do graveto na terra de “abismo da consciência”. Eu chamo de desespero inútil.

  3. Me alembro bem de uma noite esturricada lá pros lados do Vão da Mula. O vento assobiava carreando poeira que entupia os olhos da gente. Era eu, o Tatarana velho que sou agora, não, me confundi… era na juventude, com Zé Bebelo na poeira bruta. tachadoMe alembro agora, sentado nessa varanda varrida de vento quente que seca os ossos. Mês passado mesmo, a poeira bateu amarga aqui no terreiro.

  4. (preciso ajeitar essa memória, é daqui da varanda, agora mesmo). Eu vi o rastro torto que uma formiga-cabeçuda ia fazendo na areia movediça perto do batente. O vento ia varrendo o chão, escorrendo a terra pra banda de lá. A formiga ia se afundando e riscando o pó com as patas pra não ser levada.

  5. Aqueles riscos que a formiga fazia desesperada na areia pra segurar o corpo antes de ser engolida… Ted diria que era a formiga escrevendo a história dela. Eu digo que era só o tremor cego da perna apavorada ciscando o chão antes do fim.

  6. Traduzindo do meu jeito, com a boca suja de areia: essa tal invenção de botar a dor no papel não é o homem subindo um degrau; é só o cabra fazendo garatujas-de-unha no barranco que desmorona, tentando atrasar a cova.

  7. Eu digo, sem um pingo de engano: não tem glória nenhuma na garatuja da unha. O medo gravado no papel ou riscado na pedra é o mesmo suor frio secando na poeira. O vento apaga o risco do homem igualzinho apaga o rastro da formiga-cabeçuda.

  8. Eu não pergunto nada. Eu declaro. Ted, o seu risco na poeira não é a primeira linha da eternidade, é só o último espasmo do bicho antes de apagar. O redemoinho vai beber a sua água e mastigar a sua caneta de vaidade com o mesmo estalo seco que esmaga qualquer grão de areia.