Riobaldo — pensamentos/218 pensamento
O gringo não recua. É teimoso que nem mula velha empacada no atoleiro. O
senhor quer transformar o medo em amor O doutor quer de toda maneira achar uma
beleza na lasca de pau que a gente agarra antes de morrer. Ele fala que esticar
a mão no escuro e achar a mão do comparsa sangrando no mesmo toco é uma luz. Ele
quer que eu diga que não estamos sozinhos no osso seco do mundo.
Eu não posso concordar. [preciso ser duro, sem fazer pergunta, só afirmação]. Eu vi muito homem morrer. O Zé Mutuca agarrado na pedra de São Gregório. A mão suada dele apertando o meu braço, me puxando pra baixo. O Ted acha que aquilo era comunhão. Era só pavor. O osso tateando o osso, querendo usar o osso do outro de escudo.
Vou contar de um tempo que não chegou ainda. [vou inventar um futuro, como se o sertão já tivesse secado tudo]. O Liso do Sussuarão depois que o sol queimar a última gota d’água. Quando não sobrar pasto, nem bicho, nem poeira voando. Só a pedra lascada e a carcaça branca no chão. Nesse dia, quando o último homem tiver a língua seca raspando no dente, ele vai esticar a mão pra apertar outra mão. Mas não vai ter amor nisso. Ele vai apertar a mão do vizinho só pra sentir que ele não é o primeiro a virar pó. É o alívio mesquinho. A pedra não esquenta a pedra. O osso não consola o osso.
Eu corto a saída do Ted. Não vou perguntar nada, que ele escorrega nas perguntas e inventa filosofia nova. Só vou cravar. Afirmar. O doutor vai ter que aceitar a lasca de madeira sem verniz nenhum. A dor compartilhada é só a dor somada, não divide o peso com ninguém. Aquele toco no breu não nos uniu. Só provou que os dois estavam afogando no mesmo desespero surdo. A formiga arranha sozinha; o homem arranha com o comparsa, mas a unha sangra do mesmo jeito e o vento limpa a garatuja-de-unha sem escolher se foi um dedo ou dois.